sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Perseguição - Epílogo

Epílogo

                Joseph sentou no sofá que fica no apartamento que ele possuía na cidade grande. De lá, pegou seu celular e ligou para o contratante:
                -O serviço está concluído. O relatório está pronto.
                -Que notícia boa, Joseph. Me encontre no almoço no mesmo restaurante que combinamos o serviço.
                Joseph levantou e caminhou pelas ruas que tanto conhecia. O que mais queria naquele momento era entregar o relatório e partir. Precisava de férias. Essa missão desgastara-o fisicamente e mentalmente. Olhou aquela paisagem urbana e suspirou.
                Caminhou por meia hora e chegou no restaurante. O homem lia um jornal e tomava um café. Joseph sentou:
                -Gostei muito de saber que você realizou a missão. Veja esse jornal.
                O jornal trazia duas matérias de Sordes. A primeira falava da jovem que assassinara muitos homens na cidade e que tragicamente morrera em uma explosão. A segunda, falava da prisão dos diretores da Mr. Connes por causa de tráfico de órgãos e envolvimento com a máfia. Joseph deixou escapar um sorriso ao ver a foto do comandante Barros recebendo uma condecoração por resolver os dois casos.
                Joseph entregou um envelope para o homem:
                -Está tudo detalhado aqui.
                O homem pegou uma mala e entregou a Joseph:
                -Isso é uma bonificação por ajudar no outro caso. Estavam atrás dessa máfia que matava pessoas para vender os órgãos há alguns anos. Você conseguiu solucionar tudo para eles.
                Joseph pegou a mala:
                -Foi sorte.
                Eles almoçaram. Joseph olhou para o homem:
                -Vou tirar umas férias. Essa missão me cansou.
                O homem sorriu:
                -O Presidente da sociedade disponibilizou uma das casas para você. Tem alguma em especial que você queira a chave?
                Joseph sorriu:
                -A de Sordes.
                O homem assustou-se:
                -Esperava todas, menos essa. Você sabe quea chave está perdida. Além disso, você explodiu o depósito.
                Joseph sorriu:
                -Precisam de alguém para reconstruí-lo. Eu aproveito e mando notícias de Sordes para vocês.
                O homem assentiu com a cabeça.
                -A casa é sua. Não temos interesse em usá-la novamente mesmo.
                Joseph levantou e despediu-se do homem.
                Ao chegar no hotel, fez uma ligação. Em minutos, um carro o pegou na entrada. Ele entrou no carro, que era dirigido por Rocha:
                -Meu amigo, que bom que você veio.
                Joseph pegou a mala, cheia de dinheiro e entregou para Rocha:
                -Isso é um bônus por todos os serviços que você prestou para mim.
                -Joseph, eu não posso...
                -Pare com isso, Rocha. Não conseguiríamos nada sem você. Você é um dos melhores assassinos da sociedade.
                Rocha sorriu:
                -Isso porque não sou um assassino.
                Joseph concordou:
                -Pois é, você na verdade é o nosso maior colaborador.
                Rocha dirigiu em direção à zona rural. Depois de duas horas e meia de viagem, pararam diante de uma casinha simples. Foram recebidos pelos pais de Joseph e sua irmã:
                -Meu filho! Estava esperando vocês para o almoço!
                Eles sorriram e entraram. Celebraram as férias com um delicioso almoço em família.

                Sara abriu os olhos. Estava numa cama, vestida com um roupão branco. A sala era toda pintada de branco.
                "Onde eu estou? Será que essa é a vida após a morte?"
                Levantou-se. Sentia-se um pouco zonza. Na sua frente havia um espelho que cobria toda a parede. Olhou-se e assustou-se. Seus cabelos estavam cortados e pintados de preto. Sua sombrancelha fora modificada e estava maquiada.
                Procurou uma porta. Não havia. Gritou:
                -Socorro!
                Mas o som parecia preso naquela sala.
                Voltou para a cama. Sentou-se e chorou. Não sabia onde estava. Talvez aquela sala fosse o seu castigo eterno. Talvez passasse a eternidade sozinha. Mas o que poderia fazer? Seguira seu destino, e perdera no final. Joseph realmente era o maior de todos os assassinos.
                Alguns minutos se passaram. Pareceram uma eternidade.
                Sara escutou um barulho. O espelho começou a abrir-se. Ela encolheu-se em posição fetal. Sentia-se acuada e não podia fazer nada. Nem mesmo tinha armas para lutar.
                Quando abriu-se por completo, viu entrar naquele pequeno quarto uma figura com quem dividira seus últimos momentos:
                -Joseph?
                -Oi, Sara. Que bom que acordou. Venha comigo.
                Sara levantou-se. Saiu pela passagem no meio do espelho. Do outro lado, viu a sala de uma casa no campo. Uma senhora simpática estendia uma calça jeans e uma camiseta para ela. Joseph falou:
                -Vista essa roupa.
                Ela concordou. Pegou as roupas, entrou no banheiro da casa e trocou-se. Ao sair, Joseph a esperava:
                -Venha, vamos comer. Depois te explicarei tudo.
                Ela seguiu Joseph, sem saber ainda se era real ou não.
                Na sala de jantar, havia uma imensa mesa de madeira rústica, com cadeiras ao seu redor. Na mesa, estavam várias panelas com muitas variedades de comidas caseiras. Sentados, estavam o pai de Joseph, a irmã e Rocha. Os dois sentaram-se também e, por último, veio a mãe dele. Ela disse:
                -Vamos agradecer a comida e a bênção da vida. Comam e aproveitem do melhor de nossa terra.
                Todos, exceto Sara, responderam:
                -Amém.
                O almoço foi divertido. Rocha contou alguns casos, o pai de Joseph riu de cada um deles e também relatou fatos engraçados de seu passado. A mãe comia e repetia que já havia ouvido aquelas histórias antes. Joseph agia normalmente e segurava na mão de Sara todo o tempo. Ela comia tudo que a mãe dele colocava no seu prato, ainda perdida. A irmã, que deveria ter quase a idade de Sara, comia sem falar muito. Estava preocupada em encher a barriga.
                Depois de longas horas de degustação, Rocha despediu-se de todos e partiu. Os pais de Joseph disseram que dormiriam um pouco. A irmã foi para o quarto e ficou estudando com as portas fechadas.
                Restaram na sala Joseph e Sara. Ela ainda estava de mãos dadas com ele, mesmo sem perceber.
                Joseph acariciou o rosto dela e disse:
                -Venha. Sente-se.
                Os dois sentaram-se no sofá da sala. Joseph iniciou a conversa:
                -Desculpe por você estar assim, sozinha num quarto branco. Mas precisava te manter num lugar seguro.
                -Joseph... Eu deveria...
                -Sim. Estar morta. Mas não está.
                -Por quê?
                Joseph sorriu:
                -Eu te disse. Há dez anos recebi uma missão. E sempre cumpro minhas missões. Sua mãe me procurou desesperada, pedindo que a todo custo eu te protegesse. Eu tentei salvá-la. Mas infelizmente fui atrasado por alguns comparsas de seu pai. Quando cheguei, sua mãe já estava sem vida.
                Joseph levantou-se:
                -Ao te ver, tentei fazer com que você tivesse uma vida melhor do que a minha, queria te dar uma nova oportunidade de vida. Por isso mandei você correr. Eu sabia que havia um policial naquele caminho. Só não imaginava que você fugiria dele.
                Ela balançou a cabeça:
                -Fiquei com medo. Mas isso ainda não explica o que aconteceu no depósito.
                Joseph prosseguiu:
                -Chegarei lá. Quando soube que você estava naquela casa, comuniquei o fato à sociedade. Requisitei uma vigilância, e enviamos o Mestre para Sordes. Ele foi autorizado a te treinar, pois relatou que você era uma potencial assassina. Tentamos fazer da arte oriental um regulador da sua vida. Aproveitamos para treinar o pequeno Takashi. Infelizmente você matou os dois. Quando recebemos esse relatório, ficamos de olho em tudo que acontecia em Sordes. Responsabilizei-me por você. Eu disse que se algo saísse do controle, eu mesmo a deteria.
                Ele fez uma pausa:
                -Tudo ia bem. Até você resolver chamar a minha atenção. Não só a minha, mas um poderoso general exigiu que resolvêssemos o caso. Por isso eu fui para Sordes.
                Ele sentou ao lado dela de novo:
                -Mas não poderia te matar. Eu prometi à sua mãe. Por outro lado, eu tinha que acabar com a assassina.
                Ele respirou fundo:
                -Com a ajuda de Rocha, elaboramos um arriscado plano. Enquanto eu chamava a sua atenção e forçava sua ação rápida de vingança, ele preparava o depósito para o encontro final.
                Ela olhou para Joseph:
                -E por que não me impediu de matar aquelas pessoas?
                Joseph deu de ombros:
                -Você tinha direito de executar sua vingança. Além disso, precisava legitimar a assassina de Sordes.
                Ele riu:
                -Por fim, convenci o comandante Barros que você era apenas uma assassina que acreditava ser a filha do poderoso Sr. Connes. Assim, quando o depósito explodiu, ele encontrou o corpo da assassina dentro e, ao realizar um teste de dna, provará não ser a herdeira.
                -E por que isso?
                -Calma. Uma coisa de cada vez. Na hora que você estava na sala, eu consegui te enganar. As paredes eram cobertas com um material metálico, mas não era metal. Foi só para impedir sua ação. Enquanto você estava distraída com meu discurso, Rocha te acertou com um pequeno dardo. Ele continha um anestésico forte, que a fez desmaiar. Rocha pegou seu corpo, enrolou em um plástico e colocou no carro. De lá, retirou o corpo de uma mulher que trabalhava para seu pai, uma das cientistas do andar secreto. Você a matou. Trocamos os corpos. Depois, deu uma volta na cidade. Nesse intervalo, sabendo da proximidade de Barros, explodi o galpão, evitando que descubram algo a mais sobre a sociedade dos assassinos.
                Sara estava espantada:
                -Mas por que tanto trabalho? E o que aconteceu com meus cabelos?
                -Visual novo. A mídia está divulgando os problemas que aconteceram em Sordes. É hora da herdeira reaparecer.
                -Como assim?
                Joseph sorriu novamente:
                -Você voltará a Sordes e finalmente tomará conta do que é seu por direito. Os responsáveis pela ligação da empresa com a máfia foram presos. A empresa está sem dono. Precisam de um rumo ou a mesma será fechada.
                Fez uma nova pausa:
                -Sara, eu tinha que acabar com a assassina. E fiz isso. Eu acabei com a Sara Smith, a mulher que iniciou uma onda de assassinatos. Está na hora de você viver sua nova vida. Está na hora de você ser de novo Sara Connes.
                Sara não esperava isso:
                -Por isso o novo visual? Você quer que eles pensem que sou uma nova pessoa?
                -Exatamente!
                Sara sorriu. Era estranho estar diante de Joseph, mas sentia-se bem:
                -Joseph, como sabe que eu não vou matar novamente?
                Ele levantou-se e pegou-a pelas mãos:
                -Já resolvi isso. Preciso de umas férias, e o depósito precisa ser reconstruído. Vou passar um tempo em Sordes, e serei sua parte controladora. O que acha?
                Sara o abraçou forte:
                -Claro que acho ótimo! Desde que eu possa morar com você.
                -Eu esperava por isso, Sara.
                Num súbito momento, ela beijou Joseph. Ele respondeu ao beijo. Ela ficou sem graça:
                -Desculpe-me, Joseph, não sei o que me deu.
                Ele abraçou a jovem e acariciou seu rosto:
                -Vamos, vamos viver uma nova vida.
                Os dois saíram abraçados. Aproveitaram ainda uns dias na casa dos pais de Joseph e partiram para Sordes. Dessa vez, não como assassinos, mas como visitantes, como pessoas normais que tiravam férias.

                Era uma noite chuvosa. Os funcionários daquele cemitério estavam à espera. E, como sempre, lá estava a figura, vestida com uma capa marrom, luvas e capuz.
                A figura entrou na mesma tumba, que ninguém mais tinha a chave. Ao entrar, retirou o casaco. Revelou-se uma senhora, beirando os 90 anos e com o rosto  marcado pelas rugas da vida. Parecia que, na juventude, fora uma bela mulher.
                 Ela colocou-se diante do caixão:
                -Oi, amor. Como você está? Sabe que dia é hoje? Hoje faz setenta anos que tudo aconteceu. Hoje completam-se setenta anos que eu morri como Sara Smith e você me trouxe de volta para me tornar a herdeira da Mr. Connes, para me tornar de novo Sara Connes. Ah, como sinto sua falta. Nossas viagens, nossas aventuras, cada momento que passamos juntos. E você? Está se sentindo sozinho aqui? Acho que você deveria ter me esperado para partir, Joseph. Mas tudo bem. Em breve eu estarei aqui também, ao seu lado. Por isso mantive essa coluna de mármore ao  lado da sua.
                Ela secou uma lágrima. Depois, como sempre, recitou o juramento sagrado da Sociedade Secreta dos Assassinos:
-Marcados pela vida, Vida que manipulamos com mãos impuras. Sejamos juízes e executores do que foi oculto pelas areias do tempo. As marcas do passado reflitam o brilho de nossa justiça. O túmulo de nossos pais seja a força que nos conduz.  Frente à face da morte, aceitemos nosso destino como culpados que somos.
Essas palavras sempre trouxeram força a Joseph e o mesmo acontecia com ela. Elas os fortalecia e os unia.
Por fim, saiu da tumba e trancou-a.
                Vagamente, ela seguiu para um carro que a esperava.
                Ela entrou e fitou o jovem que estava de motorista:
                -Meu filho, você está igual ao seu pai, quando nos conhecemos.
                -Mamãe...
                O filho abraçou Sara. Ela olhava para ele e via a imagem de setenta anos atrás, do seu amado Joseph.
                -Vamos, filho.
                -Para onde, mãe?
                Ela sorriu:
                -Para a floresta. Para o lugar onde nos vimos pela primeira vez.
                Sara, agora idosa, seguiu seu caminho. Revisitara todos os lugares onde um dia caminhara com seu amado Joseph. Acompanhada por seu filho, contou todas as aventuras, todos os detalhes, e como ele transformara uma assassina na mais importante empresária daquele lugar.  Queria que ele lembrasse de tudo e registrasse aquelas memórias, pois estava certa que a vida que ela e Joseph viveram não poderia ser esquecida.
               
                Fazia isso, certa de que a morte, que sempre esteve tão perto, agora batia-lhe a porta. E, finalmente aceitá-la-ia, pois sabia que quando ela chegasse, descansaria eternamente ao lado do seu eterno amado.



FIM

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