sábado, 26 de outubro de 2013

Perseguição - Capítulo 2

CAPÍTULO 2
 Hidup dengan tangan kotor untuk memanipulasi - VIDA QUE MANIPULAMOS COM MÃOS IMPURAS

                Joseph e Rocha chegaram à central de polícia de Sordes. Ali, o comandante Barros o aguardava:
                -Senhores, por favor, entrem.
                Os dois entraram numa sala onde havia dois computadores com duas mulheres trabalhando intensamente, um policial monitorando o trabalho, uma mesa com um notebook e duas cadeiras e, no fundo, uma porta para o banheiro. Essa era a central que procurava encontrar o assassino misterioso.
                -Senhor Joseph, essas são nossas instalações. Eu estarei aqui auxiliando na busca por esse assassino.  Estas são Meg e Ana, as secretárias, e este é o Cabo Silva, que ajuda na operação. O que os senhores desejam neste momento?
                Joseph olhou para Rocha, que estava exausto da longa noite pilotando e depois dirigindo:
                -Precisamos ir para a pensão e dormir um pouco. Mais tarde retorno.
                Os dois foram levados para uma pensão pequena, porém confortável, que servia comida caseira e oferecia pequenos serviços de quarto. Eles colocaram as malas dentro do quarto, arrumaram tudo e Rocha deitou. Joseph fez um sinal para o amigo:
                -Descanse, Rocha. Teremos muito trabalho.
                -E você, Joseph?
                -Vou dar uma volta e retorno em breve.
                Joseph saiu da pensão para estabelecer uma rotina que seguiria todos os dias que estivesse na cidade: passou em uma padaria, pediu um café, bebeu, pagou e trocou algumas palavras com a atendente. Depois, seguiu até uma banca, comprou o único jornal local, andou 50 metros e sentou em um banco na mesma praça que vira Sara. Ali, leu todas as notícias, levantou, deu uma volta no quarteirão e retornou à pensão. Tinha feito um reconhecimento da cidade que, segundo ele, não mudara muito em dez anos.

                Sara estava animada naquela manhã. Conseguira atrair a atenção de Joseph e trrazê-lo para a cidade mais rápido do que imaginava. Isso provava sua teoria sobre os assassinos. Sentia-se livre, pronta para realizar seus planos.
                Ela passou na única padaria perto da praça da cidade, pediu um café e um pão. Pagou a conta e seguiu para a empresa Mr Bonnes, pois teria um dia intenso de trabalho.
                Ao virar a esquina, seu celular tocou. Ela pegou e fez uma cara não muito boa. Era Eduardo, o homem que a abrigara dez anos atrás quando tivera a vida salva por Joseph. Atendeu com pouca vontade:
                -Oi.
                -Bom dia, filha. Tudo bem com você?
                Sara odiava ser chamada de "filha",  pois conhecia seu verdadeiro pai, mas Eduardo sempre chamava-a dessa forma. Ela já estava um tanto quanto enfurecida. Ele já tirara o sorriso que estava estampado em seu rosto:
                -O que você quer, Dudu?
                Todas as crianças adotadas por Eduardo chamavam-no de Dudu, um apelido carinhoso, mas desprezível aos olhos de Sara. Ela chamava-o assim como se isso fosse colocá-lo abaixo dela.
                -Minha filha, estou com saudades de você. Tem três dias que não nos falamos e você não vem me visitar há mais de um mês. Por favor, venha no meu almoço hoje.
                Sara havia esquecido que aquele dia era o aniversário dele. Ela odiava aniversários, desde que os pais foram assassinados numa festa de aniversário, mas Eduardo insistia em comemorar. E fazia questão da presença de todos. Ela iria dizer que não ia, mas conteve-se. Pela sua mente, uma perversa frase ecoou: "Um belo dia para morrer!".
                -Ok, Eduardo, mas não poderei demorar muito. Vou só passar em casa antes.
                -Minha filha querida, que felicidade! Estarei te aguardando ansiosamente. E... Sara... Eu te amo muito.
                Sara não respondeu. Apenas desligou o telefone.
                Eduardo era uma figura bem conhecida em Sordes. Desde que completara vinte anos abrigava crianças em sua casa, uma grande mansão herdada de seus pais. No total, adotara três meninos e sete meninas. Cada uma criança que entrava para morar com ele era motivo de festa. Ele dava entrevista em jornais, tirava fotos, e tentava mostrar o quanto era uma boa pessoa. A única que entrara sem festa fora Sara, devido à emergência em que terminara na casa dele.  Era querido por todos na cidade e muitos queriam ajudar a cuidar de suas crianças, mas ele recebera uma herança muito grande e não aceitava nenhum tipo de ajuda. Nunca casara, escolhera dedicar sua vida às suas crianças.
                Quando completavam 18 anos, eles poderiam continuar na casa, mas Sara preferiu sair e morar sozinha. Esse fato entristeceu muito Eduardo, mas não a impediu.
                Naquela manhã, onde completaria 47 anos, acordara animado e tivera um café da manhã especial preparado pelos seus filhos adotivos. Conversara com todos durante a parte da manhã, alguns saíram para trabalhar e as duas meninas mais novas ficaram preparando o almoço. Depois de ligar para Sara, preparou uma bonita mesa que tinha na cozinha e colocou um conjunto de louças especiais que usava sempre em aniversários. "Será um almoço especial!" pensou.
                Quando o relógio marcou 12h, Sara entrou na casa de Eduardo. Abraçou-o, por convenção:
                -Feliz aniversário!
                -Obrigado, minha filha querida!
                Sara pensou em falar algo, mas desistiu. Ela carregava uma bolsa, que entregou a Eduardo:
                -Um pequeno presente.
                Era uma garrafa de vinho, de uma safra especial. Na casa, somente Eduardo bebia vinho, e era um apaixonado pela bebida. Logo abriu a garrafa e começou a beber.
                -Que vinho delicioso, filha!
                -Hoje é um dia especial, Dudu! Você merece comemorar!
                Quando todos os que moravam com Eduardo chegaram, o almoço foi servido. Havia muita fartura, e degustaram o melhor da comida local. Ainda tiveram tempo para uma sobremesa.  Quando acabaram de comer, sentaram na sala e ficaram conversando. Sara estava numa poltrona acolchoada, que fora sua preferia durante todo o tempo em que estava naquela casa, e olhava fixamente para Eduardo. Por um momento, olhou para o relógio de parede acima da cabeça dele e deixou escapar um sorriso pelo canto da boca.
                Cinco minutos passaram-se. Eduardo começou a sentir algo estranho. Era como se flutuasse, como se aos poucos estivesse se distanciando da realidade. Tentou ficar em pé, mas foi só por um momento, pois caiu, já desacordado.
                Os filhos adotivos correram para socorrê-lo. Uma gritaria de desespero tomou conta daquela sala. Sara friamente discou o número dos bombeiros e disse:
                -Por favor, vocês poderiam enviar uma ambulância? Meu pai passou mal e caiu desacordado.
                Os bombeiros chegaram em cinco minutos, mas era tarde. Eduardo já estava morto.

                Paralelo a esses acontecimentos, Joseph descansou durante toda a parte da manhã. Ao levantar, almoçou na pensão e seguiu para a central, onde trabalharia para resolver o caso do assassino.
                O Comandante Barros sentou ao lado de Joseph e começou a explanar  a situação:
                -Senhor, foram cinco assassinatos. Para uma cidade pequena, isso é muito, todos estão com medo e esperam algo da polícia. Eles temem que isso possa continuar.
                Joseph olhou para aquele homem, tão desesperado e tão despreparado. Ele sabia que não seria tão simples assim pegar a assassina, mesmo sabendo quem era. Precisava de provas, de um deslize. E cometer erros não era algo comum para um assassino. Mas estava curioso também, pois não sabia quem a tinha treinado tão bem.
                -Barros, fique tranquilo. Vamos pegar o responsável por isso. Só tenha paciência. Temos que pegá-la de forma que não consiga escapar. Por hora, traga-me as fichas dos homens que morreram.
                Joseph já tinha lido a ficha de cada um e sabia como relacionavam-se com Sara, mas esperava por algo mais concreto para poder prendê-la.
                Enquanto relia as fichas, escutou a ambulância dos bombeiros passar correndo bastante. Chamou o comandante:
                -Barros, o que houve?
                -Não sei, senhor, mas vou verificar.
                Cinco minutos depois, após muitas ligações, Barros trouxe a resposta para Joseph:
                -Senhor, um homem teve um infarto. Parece que não resistiu.
                Joseph escrevia uma mensagem no celular e escutou sem olhar para o comandante. Depois de terminar sua tarefa, respondeu:
                -Que pena. Pensei que fosse algo relacionado ao nosso caso. Mais uma coisa, Barros... Pare de me chamar de senhor.
                Naquela tarde nada mais aconteceu. Joseph verificou os arquivos no computador e fez algumas anotações. Por fim, dispensou todos e foi embora.

                Amanheceu em Sordes, e era o segundo dia que Joseph estava na cidade. Ele levantou às 6h da manhã e resolveu seguir sua rotina. Desceu e foi na padaria. Ali, escutou os primeiros relatos do que acontecera no dia anterior:
                -Soube do Eduardo, aquele das crianças?
                -Não, o que aconteceu?
                -Ele morreu ontem. Disseram que estava almoçando com a família e seu coração não aguentou.
                -Mas assim... do nada?
                -Ah, nunca se sabe. Quando se trata de coração muitas vezes somos pegos de surpresa.
                Joseph degustava seu café enquanto estava atento àquilo que ouvia. A história deixou-o intrigado. Era coincidência demais isso acontecer logo no dia que ele chegou. Poderia ser somente um caso de morte natural, mas Joseph duvidava.
                Ele pagou o café e caminhou até a banca. Ali comprou a edição diária do jornal local. Na primeira página estava estampada a foto de Eduardo, com os dizeres: "Faleceu ontem Eduardo, grande benfeitor das crianças".
                Joseph sentou no banco da praça e leu todas as notícias. Gastou mais tempo na notícia da morte de Eduardo. Leu com calma, digerindo cada palavra. Olhou para o relógio, que marcava  6:30h. Ligou para o Comandante Barros:
                -Comandante, não irei trabalhar agora cedo. Se houver alguma emergência, me ligue.
                -Sim, Joseph. Mas se me permite, onde vai tão cedo?
                Joseph deixou escapar um riso sórdido:
                -Vou a um velório.
                Antes que Barros pudesse perguntar alguma coisa, Joseph desligou. Ele levantou do banco, entrou em um ônibus e ficou sério. Sabia que era um movimento um pouco arriscado, mas não poderia perder a oportunidade.
                Após passar 40 minutos no trânsito, desceu em frente ao cemitério. Viu um grande movimento em torno de uma das capelas e para lá seguiu. Observou cada um dos presentes, mas não encontrou Sara. Cumprimentou todos os presentes, demonstrando estar emocionado com a cena de ver o homem morto. Reparou que duas crianças estavam olhando de longe. Aproximou-se:
                -Vocês devem estar tristes.
                Uma das meninas olhou para ele com olhos assustados, mas ao mesmo tempo tristes:
                -Tio, o que será de nós? Ele cuidava da gente...
                Joseph abraçou a menina. Queria dizer que tudo ficaria bem, mas não queria mentir para a menina. Acariciou a cabeça dela, até que alguém a chamou. Olhou para a mais velha:
                -Onde está a outra irmã de vocês, a Sara?
                Ela olhou seriamente para Joseph:
                -Sara nem se importou. Depois que Dudu morreu ela ligou para os bombeiros e foi embora. Nem aqui ela apareceu. Ela nunca se importou realmente conosco. Dudu sempre fez tudo por ela e ela sempre pensou só em si.
                Joseph refletiu por um momento, despediu-se da menina e partiu.
                Ele estava cada vez mais certo de que Sara era a responsável. Ainda ficou alguns minutos na porta do cemitério e viu o caixão sendo carregado e colocado no túmulo. Virou e partiu, sentindo uma revolta dentro de si.

                Longe dali, Sara entrava na empresa que trabalhava e seguia para seu posto. Pegou diversos papéis e começou a organizá-los. Ali ficou até que seu chefe chegou:
                -Sara? O que faz aqui? Pensei que estaria no velório do seu pai...
                Sara esperava não ser vista por José, que era o homem que a chefiava naquele momento. Logo inventou uma desculpa:
                -Ah, chefe, estou tão abalada que não consegui ir. Preferi vir para cá para me distrair.
                Abraçou José e chorou. O chefe tentou consolá-la:
                -Acalme-se, Sara. Vamos, vamos dar uma volta para você se acalmar.
                Sara conseguira mais uma vez. Tinha o chefe em suas mãos.


Próximo Capítulo

Joseph revela ao Comandante Barros que sabe quem é a assassina e diz que a pegará logo. A informação chega aos ouvidos de Sara, que demonstra gostar da notícia, afirmando que seu plano estava seguindo o andamento programado.


Em 15 dias: Capítulo 3 -  Marilah kita menjadi hakim dan algojo - Sejamos juízes e executores

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Perseguição - Capítulo 1



CAPÍTULO 1
 Ditandai bagi kehidupan - MARCADOS PELA VIDA

                Joseph levava uma vida relativamente tranquila desde que chegara na capital três anos atrás. Com o dinheiro que recebia mensalmente da Sociedade Secreta dos Assassinos, alugara um apartamento e poderia manter-se sem precisar trabalhar nenhum dia sequer. Mas conseguira um emprego em uma loja, cuidando de assuntos de escritório. Assim, poderia manter a aparência de um homem normal, sem chamar a atenção para seus atos.
                Como um Assassino profissional, Joseph recebera dos seus contratantes as mais altas premiações por trabalhos realizados. Era requisitado para os mais diversos serviços sujos, sendo sempre o contratante um agente do governo ou do exército. Mas os três últimos anos foram calmos, nenhuma missão, nenhuma urgência. Apenas a paz e tranquilidade de uma vida ordinária e normal. Joseph estava até acostumado com aquela nova vida e tinha a doce ilusão de que ela duraria para sempre. No fundo de sua alma, desejava que ela durasse para sempre.
                Naquela manhã ensolarada, acordou no horário habitual e seguiu para o escritório. Era difícil não ser notado, devido aos seus quase 2 metros de altura, corpo definido, rosto fino e olhos profundos. Além disso, guardava uma cicatriz na face esquerda, que insistia em dizer aos que perguntavam que fora consequência de um acidente de quando era uma criança.
                Ao entrar no prédio comercial, foi cumprimentado pela filha do porteiro:
                -Bom dia, Joseph.
                Mantinha seu nome original. Não precisava esconder o nome, apenas seus atos. Além disso, seu nome era bem comum, e não chamaria a atenção. Respondeu carinhosamente:
                -Bom dia, Dulce.
                Sorriu para ela e seguiu para o elevador. Se fosse apenas um homem normal trabalhando, chamaria a moça para sair, mas sabia que não seria possível relacionar-se com alguém até que a sociedade o aposentasse.
                Joseph subiu pelo elevador, entrou no escritório e sentou na cadeira que ficava perto da janela, em frente a uma mesa cheia de papel. Ele escolhera pessoalmente aquele lugar, pois do décimo andar, poderia olhar a cidade e ter um utópico sonho de um dia viver sem preocupações.
                Pediu seu habitual café com torradas. Separou diversos papéis e pretendia não sair para almoço, o que lhe daria tempo para adiantar tudo que estava atrasado.
                Era o que pretendia, até que seu smartphone tocou. Joseph olhou para aquele número e respirou fundo, entristecido. Um pouco relutante, atendeu a ligação:
                -Alô.
                Uma voz masculina, tão conhecida de Joseph, estava do outro lado:
                -Olá, Joseph. Preciso falar com você pessoalmente, com urgência. Surgiu um serviço que só você pode realizar.
                -Hum... Por que eu?
                -Joseph, ao analisar o caso você entenderá. O chefe exigiu que fosse você. Pode me encontrar agora?
                Joseph olhou o relógio, que marcava 11:57h:
                -Saio em três minutos para o almoço. Me encontre no Restaurante do Paulo em meia hora.
                -Ok,  Joseph. Deixe tudo preparado, preciso de início imediato.
                Desde que Joseph ingressara na Sociedade, era a primeira vez que era requisitado com tanta urgência. Soubesse ele antes o motivo e teria ido ao encontro daquele que o chamara com muito mais rapidez.
                Joseph arrumou sua mala e desceu. Passou pelo departamento pessoal e deixou um envelope:
                -Por favor, analisem esse meu pedido.
                Depois, desceu e passou pela jovem que encontrara na entrada. Chamou-a em um local mais isolado do prédio:
                -Dulce, eu vou ficar fora por uns tempos. Queria te dizer que você é encantadora e que nunca te chamei para sair porque sabia que esse dia chegaria.
                Ele puxou a jovem e beijou-a, apaixonadamente. Sentia-se não só despedindo-se dela, mas da empresa e de todos que conhecera ali. Virou-se para partir e fora impedido pela moça:
                -Por favor, Joseph, prometa que vai voltar.
                Era uma tarefa difícil para um assassino, pois nem mesmo imaginava os riscos que enfrentaria. Mesmo assim, preferiu fazer uma tola promessa que não se esforçaria nem um pouco para cumprir:
                -Eu prometo, e então sairemos juntos e começaremos um relacionamento intenso.
                Palavras tolas ditas ao vento, por alguém que estava sempre pronto a seguir em frente sem olhar para trás.
                O elevador parecia demorar a chegar ao andar térreo. Era como se ele quisesse impedir a saída de Joseph, como se todo o universo conspirasse para que ele permanecesse ali. E esse era o desejo de Joseph também. Cansara de ser um assassino, de ser o homem que "limpa a sujeira da humanidade", como fora qualificado por um os generais que constantemente o convocava.
                O caminho vertical chegou ao fim, enquanto Joseph ainda estava preso aos seus devaneios. Era hora de enfrentar a realidade, de ser aquilo que era de melhor: um assassino. Saiu pela portaria sem olhar para trás, com a única certeza de que nunca mais entraria naquele prédio. E pela primeira vez queria estar errado.
                Joseph caminhou pelas ruas daquela moderna metrópole. Observava o cenário urbano, cercado de prédios gigantescos, com ruas e avenidas cheias de carros que insistiam em tentar ganhar velocidade. Um guarda tentava fazer com que os sinais de trânsito fossem respeitados, enquanto pedestres reclamavam do tempo que esperavam para poder alcançar o outro lado da rua.  Depois de caminhar por dez longos minutos, Joseph chegou à entrada do Restaurante do Paulo.
                O restaurante era um estabelecimento construído na beira de uma praia, com uma grande varanda de frente para o mar. Era um lugar bem disputado e normalmente estava cheio. Mas Joseph tinha sempre uma mesa reservada. Sempre para dois, mesmo que na maioria das vezes ele almoçava sozinho.
                Joseph entrou, cumprimentou o garçom como de costume e sentou numa cadeira bem próximo do fim da varanda. Pediu uma taça de vinho e degustou-a olhando para o horizonte. Passados cinco minutos, entrou um homem vestindo terno preto, blusa azul e gravata preta, e sentou na cadeira vaga na mesa de Joseph. Ele continuou olhando para o horizonte por mais alguns segundos antes de iniciar um diálogo:
                -Engraçado como que um almoço pode mudar tudo o que temos pra fazer na vida.
                O homem pareceu não importar-se com a fala dele. Pegou uma pasta com vários papéis e colocou sobre a mesa:
                -Veja isso, Joseph. Olhe bem para as cinco fotos desses homens mortos.
                Joseph pegou as fotos. Todos eles foram assassinados com golpes de espada que acertaram os pulmões, das costas para a parte da frente do corpo. Pelo jeito, não tiveram nenhuma chance de escapar. Alguns corpos apresentavam outros tipos de marca, mas somente as marcas de espada chamaram a atenção de Joseph, que permaneceu calado. O homem continuou:
                -E então, o que você acha?
                -Acho que tenho um fan.
                Desde que entrara para a Sociedade, a marca que Joseph deixava nos corpos para indicar que executara o serviço eram dois furos como aqueles.
                -Joseph, a Sociedade de início achou que poderia ser você fazendo algum serviço extra, mas pela distância seria algo impossível.
                -Onde aconteceram os assassinatos?
                O homem respirou fundo:
                -Em Sordes.
                Ao citar o nome da cidade, Joseph espantou-se. Um filme passou em sua mente, relembrando a sangrenta noite que presenciara dez anos atrás. O homem prosseguiu:
                -Quando o quinto assassinato aconteceu, um general nos convocou. Ele disse que precisa desvendar quem tem feito isso e quer o sujeito vivo ou morto, de preferência morto. Ao ver as marcas nos mortos, o chefe achou que seria de seu interesse ir atrás dessa pessoa.
                Joseph ficou ainda mais sério:
                -Interesse? Não, amigo,  é mais do que meu interesse, mas a minha obrigação, de resolver um assunto pendente há dez anos. Me responda, como encontraram os corpos?
                -Todos com as marcas da espada para cima.
                Joseph respirou fundo, coçou os olhos e olhou seriamente para o homem:
                -Alguém queria minha atenção. E conseguiu.
                O homem pegou um passaporte e entregou a Joseph:
                -Aqui está a autorização que você precisa. Às 18h pegue um helicóptero militar que estará no porto. O piloto será o Rocha. Mostre seu passaporte na entrada e eles te conduzirão para o helicóptero.
                Joseph deixou uma nota na mesa e partiu. Dali, seguiu pelo seu apartamento. Pegou uma chave, abriu uma porta disfarçada na sala. Era uma espécie de armário. Dentro, reluziam duas espadas, além de um arsenal completo. Joseph armou-se das espadas, colocou algumas armas de fogo escondidas pela roupa, ajoelhou-se diante de uma foto e recitou palavras do juramento maior dos Assassinos:
                -"Ditandai bagi kehidupan, Hidup dengan tangan kotor untuk memanipulasi, Marilah kita menjadi hakim dan algojo, Dari apa yang telah disembunyikan oleh pasir waktu, Tanda dari masa lalu, Mencerminkan kecerahan keadilan kami, Makan nenek moyang kita, Menjadi kekuatan yang mendorong kita, Wajah depan kematian, Menerima nasib kami karena kami semua bersalah".
                O juramento, um chamado para guerra e ao mesmo tempo uma invocação daquilo que se tornaram, era recitado sempre antes de cada batalha ou diante do túmulo de algum companheiro. Escrito em Indonésio, fora formulado pelo fundador da Sociedade. As lendas diziam que deveria ter pelo menos 1500 anos.
                Joseph trancou o apartamento e seguiu para o porto. Lá, alguns homens do exército estavam em volta do helicóptero. Ele mostrou o passaporte, os oficiais bateram continência. Ao entrar no helicóptero, o piloto Rocha o aguardava. Era um homem moreno, forte, aparentando ter  mais de 50 anos. Rocha era sempre o piloto designado para acompanhar os assassinos quando os mesmo eram convocados. Não havia um assassino que não conhecesse o Rocha, assim como ele sabia o nome de cada um desses homens que atuavam às margens da sociedade. Joseph cumprimentou a lendária figura, tomou o seu lugar e fechou os olhos. Já era noite, e sabia que chegaria em Sordes já amanhecendo. Aproveitou cada momento para divagar no que estava ocorrendo naquela cidade.
                Se ele soubesse que desde o início estava tão certo, teria chegado em Sordes muito mais preparado.

                Em Sordes, os cinco assassinatos mudaram a rotina dos moradores. Todos os assassinatos ocorreram em noites chuvosas. Assim, todos os dias, quando a noite chegava, os moradores começaram um rotina silenciosa de entrar em suas residências e trancar-se até o novo dia raiar. Para uma cidade pequena, aquela rotina afetara quase 90% da população.
                Todos temiam aquilo que estava acontecendo. Todos, exceto Sara.
                Sara trabalhava na Mr Bonnes, como Gerente de Marketing Pessoal. Começara como faxineira e utilizara todo o seu charme para seduzir cada um dos responsáveis até alcançar um cargo mais alto. Entrara com o nome que recebera quando fora adotada, Sara Miller. Assim, nunca desconfiariam que ela era Sara Bonnes, a herdeira de todo aquele império, dada como desaparecida na noite em que seus pais foram atacados e mortos.
                Sara gostava do silêncio da noite. Caminhou até a praça central e relembrou cada um dos cinco que ela usara como isca para seu verdadeiro propósito.
                O primeiro homem que morreu trabalhava com Sara. Todos os dias a assediava e insistia em sair com ela. Já irritada, aproximando-se do dia em que iniciaria seu plano, aceitou sair com o homem. Jantaram, caminharam pela cidade e, no final da noite, levou-o para a Floresta  das Lamentações. A chuva caía ainda bem fraca. Ali, pediu que ele aguardasse um momento e que voltaria com uma surpresa. O homem ficou admirando a paisagem, quando Sara, friamente, matou-o com duas espadas que mantinha guardada. O corpo fora encontrado três dias depois.
                O segundo fora criado na mesma casa que ela abrigara-se quando criança. Resolvera que vigiaria Sara, e estava causando diversos constrangimentos a ela. Livrara-se dele na segunda noite.
                Depois foi o jovem que tentou sequestrá-la. Justamente numa noite chuvosa. Ela pegou uma faca que tinha guardada e fincou-a no pescoço do homem. Depois, marcou-o com as espadas para que conseguisse chegar ao seu objetivo.
                Os dois últimos foram mortos na mesma noite, apesar de que só conseguiram encontrar o segundo corpo dias depois. Ela e o homem que dera a promoção dentro da empresa saíram, jantaram e ele tentou agarrá-la. Ela disse que não ali, e levou-o para a Floresta. Naquele lugar tão manchado de sangue, matara o coroa. Um policial seguia os dois e assistiu tudo. Sara, ao perceber a presença do homem, puxou uma arma de fogo e atirou, acertando a cabeça dele. Escondeu o corpo por alguns dias e deixou-o em frente à cabine policial.
                Passaram-se cinco dias. Ela esperava que tivesse chamado a atenção necessária.
                Perdida em seus pensamentos, adormeceu na praça. Acordou com o barulho de um carro chegando. Abriu os olhos e viu passar um carro preto com a janela meio aberta. Nela, um homem com uma cicatriz no rosto, usando óculos escuro. Ela olhou para o carro e para o homem e deixou escapar um sorriso.
                "Missão cumprida"- pensou. Foi caminhando para casa.

                Dentro do carro seguia Joseph e Rocha. Após voarem por três horas, pegaram um carro e chegaram em silêncio na cidade.
                Joseph olhou para o motorista:
                -Rocha, esse trabalho será finalizado o mais rápido do que esperemos.
                -O que quer dizer, Joseph?
                -A pessoa que vim pegar. Já encontrei. E ela vai vir atrás de mim.
                -E isso é bom?
                -Sim. Me evitará de precisar procurá-la.
                Sorriu para o sol que iluminava a cidade e disse para si mesmo:
                -A caçada começou. E há muito tempo não me sinto tão excitado com isso.
                Seguiram para a central da polícia. Ali o comandante aguardava Joseph ansiosamente.


Próximo Capítulo
Joseph juntará forças com a polícia local para tentar pegar o assassino. Enquanto isso, Sara continua sua matança, instigando Joseph cada vez mais em saber quais os motivos que levaram-na a isso.


Em 15 dias: Capítulo 2 - Hidup dengan tangan kotor untuk memanipulasi - Vida que manipulamos com mãos impuras

Perseguição - Prólogo

Perseguição - Prólogo - Isaque Cipriano
PERSEGUIÇÃO
Isaque Cipriano

"Marcados pela vida,
Vida que manipulamos com mãos impuras.
Sejamos juízes e executores
Do que foi oculto pelas areias do tempo.
As marcas do passado
Reflitam o brilho de nossa justiça.
O túmulo de nossos pais
Seja a força que nos conduz.
Frente à face da morte
Aceitemos nosso destino como culpados que somos".


Prólogo

                Era mais uma noite escura e chuvosa. Os funcionários do cemitério olhavam curiosos pela janela, querendo descobrir se era verdade a lenda da figura que caminhava por aqueles lados em noites como aquela.
                Quando o relógio marcava 23:47h, viram pela pequena janela um vulto que caminhava em direção a uma pequena capela contantemente iluminada. Essa figura, que não era possível definir se era homem ou mulher, estava coberta com uma capa marrom de couro, com um capuz que cobria-lhe a cabeça, óculos escuro e um lenço enrolado cobrindo o que restava do rosto e protegendo do frio. Pelo seu jeito, era conhecido como "O fantasma negro do cemitério". A grande verdade é que ninguém sabia sua verdadeira identidade.
                O fantasma entrou na capela, pequena, onde um caixão residia sobre uma coluna de mármore e, ao lado, uma coluna vazia com um caixão aberto. a figura olhou para o caixão como quem esperava o dia de repousar eternamente sobre ele.
                Na parede de frente havia uma luminária apontando para uma placa de granito com as seguinte inscrições:
"Ditandai bagi kehidupan
Hidup dengan tangan kotor untuk memanipulasi
Marilah kita menjadi hakim dan algojo
Dari apa yang telah disembunyikan oleh pasir waktu
Tanda dari masa lalu
Mencerminkan kecerahan keadilan kami
Makan nenek moyang kita
Menjadi kekuatan yang mendorong kita
Wajah depan kematian
Menerima nasib kami karena kami semua bersalah"

                A figura ajoelhou diante da placa e ali ficou, como quem recitava alguma reza. Depois, levantou-se, cobriu o caixão com um pano branco e partiu sob os olhares curiosos daqueles homens que sabiam que não veria tal cena até a próxima noite chuvosa.


                O primeiro encontro entre Sara e Joseph, o homem que habitaria seus maiores pesadelos, aconteceu há dez anos, quando Sara era apenas uma menininha de oito anos, pequena, magra, loira, com duas tranças no cabelo que estendiam-se até seus ombros e trajava apenas um vestidinho fino e florido sem mangas.
                Naquela noite, o pai de Sara, empresário e dono de uma grande empresa de exportações de materiais para papelaria e escritórios, comemorava a abertura de mais uma filial, que culminava no aniversário de 40 anos do mesmo. Ele resolvera dar uma grande festa num clube próximo à Floresta das Lamentações, lugar de reserva florestal localizado no extremo norte da cidade de Sordes, habitada por 100.000 pessoas. A empresa era dona de 85% das ações do clube e realizava todos os eventos no mesmo.
                Mas aquela era uma festa especial. O poderoso Sr.Connes  exigira a presença de todos os 734 funcionários da empresa e suas famílias, dizendo que apresentaria naquele dia novidades para o futuro da empresa e dos funcionários. Novidades que nunca vieram ao conhecimento de ninguém, devido a todos os fatos ocorridos naquela noite.
                O relógio marcava 22:00h quando a música cessou. O Sr. Connes pegou o microfone e começou seu breve e último discurso:
                -Senhoras e senhores, gostaria de agradecer a presença de todos. Hoje é um dia muito especial. Além de completar 4 décadas de vida, abrimos uma de nossas maiores filiais nesta data. E é por isso que quero fazer a todos um grande anúncio...
                Ele fora interrompido pelo corte do som. Esbravejou, mas os responsáveis sinalizaram que tudo estava normal.
                Ao virar para o público novamente, fora atingido por um impacto de uma arma de fogo, um tiro certeiro em seu coração, derrubando-o já sem vida.
                O pânico tomou conta dos convidados, que corriam descontroladamente em direção à saída.
                No meio da confusão, a mãe da menina puxou-a pelo braço e as duas saíram pelos fundos acompanhadas por um segurança.
                O caminho que encontraram foi em direção à floresta. Não tiveram tempo de discutir, pois um homem saltou sobre o segurança e golpeou-o com uma espada. A mãe da menina deixou escapar um grito de terror e partiu agarrada no braço da menina. O homem, depois de retirar a espada do corpo inerte do segurança e limpar o sangue, partiu em direção das duas. Seu objetivo era matá-las e estava disposto a fazer isso a qualquer custo.
                Enquanto corriam, a  escuridão cobria as duas, a estrada de terra e pedra insistia em feri-las e parecia interminável.
                Quando chegaram em um lugar bem fechado de mata, pararam para descansar um pouco pois estavam exaustas.
                A mãe acariciou a cabeça da filha e sorriu para ela. Um sorriso dolorido e desesperado, fruto de quem temia pela própria vida e a da filha.
                Por trás, o homem cravou a espada na mulher, respingando sangue sobre o rosto da menina.
                Quando puxou a espada, jogou o corpo da mulher para o lado e olhou em direção da menina:
                -Vejam só, falta apenas você e meu trabalho estará terminado.
                A menina chorava desesperada:
                -Por favor...
                Ele levantou a espada para matar a menina. Foi neste momento que um homem, usando um casaco de couro marrom, com um capuz que cobria-lhe a cabeça, apareceu por trás e transpassou duas espadas no homem, tão violentamente que seu corpo caiu sobre as lâminas já inerte.
                O homem jogou o corpo do assassino para o lado e olhou para a menina:
                -Você está bem?
                Ela correu, abraçou o homem e chorou.
                O homem retirou o casaco e colocou sobre ela, que estava tremendo diante do vento frio que envolvia aquele caminho da floresta. Assim, revelou um rosto redondo, com barbas a fazer, olhos castanhos grandes e profundos e cabelo curto. Ele tocou no rosto da menina e o acariciou, dizendo:
                -Siga essa estrada. Ninguém mais te perseguirá. Vá e encontre uma autoridade policial, eles cuidarão de você.
                -Mas...
                -Menina, você poderia ter morrido. Aproveite esta nova chance que a vida deu. Não olhe para trás e nunca revele de quem você é filha, pois querem te matar.
                A menina secou as lágrimas e olhou para a estrada. Depois, abraçou o homem e partiu, correndo com todas as suas forças. Ao olhar para trás, o homem partia em direção contrária. Ela correu, correu, correu, até encontrar um policial e, desesperada, contar o que aconteceu, sem revelar que era filha do Sr. Connes.
                Aquela noite fora conhecida como "A noite sangrenta de Sordes". Todos os presentes na festa foram brutalmente assassinados. Os policiais investigaram o acontecido, mas não havia nenhuma testemunha. Nenhuma oficialmente, pois sob proteção policial, havia uma menininha loira, que milagrosamente sobreviveu ao assassinato de 1478 pessoas.