PERSEGUIÇÃO
Isaque Cipriano
"Marcados pela
vida,
Vida que manipulamos
com mãos impuras.
Sejamos juízes e
executores
Do que foi oculto
pelas areias do tempo.
As marcas do passado
Reflitam o brilho de
nossa justiça.
O túmulo de nossos
pais
Seja a força que nos
conduz.
Frente à face da morte
Aceitemos nosso
destino como culpados que somos".
Prólogo
Era
mais uma noite escura e chuvosa. Os funcionários do cemitério olhavam curiosos
pela janela, querendo descobrir se era verdade a lenda da figura que caminhava
por aqueles lados em noites como aquela.
Quando
o relógio marcava 23:47h, viram pela pequena janela um vulto que caminhava em
direção a uma pequena capela contantemente iluminada. Essa figura, que não era
possível definir se era homem ou mulher, estava coberta com uma capa marrom de
couro, com um capuz que cobria-lhe a cabeça, óculos escuro e um lenço enrolado
cobrindo o que restava do rosto e protegendo do frio. Pelo seu jeito, era
conhecido como "O fantasma negro do cemitério". A grande verdade é
que ninguém sabia sua verdadeira identidade.
O
fantasma entrou na capela, pequena, onde um caixão residia sobre uma coluna de
mármore e, ao lado, uma coluna vazia com um caixão aberto. a figura olhou para
o caixão como quem esperava o dia de repousar eternamente sobre ele.
Na
parede de frente havia uma luminária apontando para uma placa de granito com as
seguinte inscrições:
"Ditandai bagi
kehidupan
Hidup dengan tangan
kotor untuk memanipulasi
Marilah kita menjadi
hakim dan algojo
Dari apa yang telah disembunyikan oleh pasir
waktu
Tanda dari masa lalu
Mencerminkan
kecerahan keadilan kami
Makan nenek moyang kita
Menjadi kekuatan yang mendorong kita
Wajah depan kematian
Menerima nasib kami
karena kami semua bersalah"
A
figura ajoelhou diante da placa e ali ficou, como quem recitava alguma reza.
Depois, levantou-se, cobriu o caixão com um pano branco e partiu sob os olhares
curiosos daqueles homens que sabiam que não veria tal cena até a próxima noite
chuvosa.
O
primeiro encontro entre Sara e Joseph, o homem que habitaria seus maiores pesadelos,
aconteceu há dez anos, quando Sara era apenas uma menininha de oito anos,
pequena, magra, loira, com duas tranças no cabelo que estendiam-se até seus
ombros e trajava apenas um vestidinho fino e florido sem mangas.
Naquela
noite, o pai de Sara, empresário e dono de uma grande empresa de exportações de
materiais para papelaria e escritórios, comemorava a abertura de mais uma
filial, que culminava no aniversário de 40 anos do mesmo. Ele resolvera dar uma
grande festa num clube próximo à Floresta das Lamentações, lugar de reserva
florestal localizado no extremo norte da cidade de Sordes, habitada por 100.000
pessoas. A empresa era dona de 85% das ações do clube e realizava todos os
eventos no mesmo.
Mas
aquela era uma festa especial. O poderoso Sr.Connes exigira a presença de todos os 734
funcionários da empresa e suas famílias, dizendo que apresentaria naquele dia
novidades para o futuro da empresa e dos funcionários. Novidades que nunca
vieram ao conhecimento de ninguém, devido a todos os fatos ocorridos naquela
noite.
O
relógio marcava 22:00h quando a música cessou. O Sr. Connes pegou o microfone e
começou seu breve e último discurso:
-Senhoras
e senhores, gostaria de agradecer a presença de todos. Hoje é um dia muito
especial. Além de completar 4 décadas de vida, abrimos uma de nossas maiores
filiais nesta data. E é por isso que quero fazer a todos um grande anúncio...
Ele
fora interrompido pelo corte do som. Esbravejou, mas os responsáveis
sinalizaram que tudo estava normal.
Ao
virar para o público novamente, fora atingido por um impacto de uma arma de
fogo, um tiro certeiro em seu coração, derrubando-o já sem vida.
O
pânico tomou conta dos convidados, que corriam descontroladamente em direção à
saída.
No
meio da confusão, a mãe da menina puxou-a pelo braço e as duas saíram pelos
fundos acompanhadas por um segurança.
O
caminho que encontraram foi em direção à floresta. Não tiveram tempo de
discutir, pois um homem saltou sobre o segurança e golpeou-o com uma espada. A
mãe da menina deixou escapar um grito de terror e partiu agarrada no braço da
menina. O homem, depois de retirar a espada do corpo inerte do segurança e
limpar o sangue, partiu em direção das duas. Seu objetivo era matá-las e estava
disposto a fazer isso a qualquer custo.
Enquanto
corriam, a escuridão cobria as duas, a
estrada de terra e pedra insistia em feri-las e parecia interminável.
Quando
chegaram em um lugar bem fechado de mata, pararam para descansar um pouco pois
estavam exaustas.
A
mãe acariciou a cabeça da filha e sorriu para ela. Um sorriso dolorido e
desesperado, fruto de quem temia pela própria vida e a da filha.
Por
trás, o homem cravou a espada na mulher, respingando sangue sobre o rosto da
menina.
Quando
puxou a espada, jogou o corpo da mulher para o lado e olhou em direção da
menina:
-Vejam
só, falta apenas você e meu trabalho estará terminado.
A
menina chorava desesperada:
-Por
favor...
Ele
levantou a espada para matar a menina. Foi neste momento que um homem, usando um
casaco de couro marrom, com um capuz que cobria-lhe a cabeça, apareceu por trás
e transpassou duas espadas no homem, tão violentamente que seu corpo caiu sobre
as lâminas já inerte.
O
homem jogou o corpo do assassino para o lado e olhou para a menina:
-Você
está bem?
Ela
correu, abraçou o homem e chorou.
O
homem retirou o casaco e colocou sobre ela, que estava tremendo diante do vento
frio que envolvia aquele caminho da floresta. Assim, revelou um rosto redondo,
com barbas a fazer, olhos castanhos grandes e profundos e cabelo curto. Ele
tocou no rosto da menina e o acariciou, dizendo:
-Siga
essa estrada. Ninguém mais te perseguirá. Vá e encontre uma autoridade
policial, eles cuidarão de você.
-Mas...
-Menina,
você poderia ter morrido. Aproveite esta nova chance que a vida deu. Não olhe
para trás e nunca revele de quem você é filha, pois querem te matar.
A
menina secou as lágrimas e olhou para a estrada. Depois, abraçou o homem e
partiu, correndo com todas as suas forças. Ao olhar para trás, o homem partia
em direção contrária. Ela correu, correu, correu, até encontrar um policial e,
desesperada, contar o que aconteceu, sem revelar que era filha do Sr. Connes.
Aquela
noite fora conhecida como "A noite sangrenta de Sordes". Todos os
presentes na festa foram brutalmente assassinados. Os policiais investigaram o
acontecido, mas não havia nenhuma testemunha. Nenhuma oficialmente, pois sob
proteção policial, havia uma menininha loira, que milagrosamente sobreviveu ao
assassinato de 1478 pessoas.
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