terça-feira, 15 de outubro de 2013

Perseguição - Prólogo

Perseguição - Prólogo - Isaque Cipriano
PERSEGUIÇÃO
Isaque Cipriano

"Marcados pela vida,
Vida que manipulamos com mãos impuras.
Sejamos juízes e executores
Do que foi oculto pelas areias do tempo.
As marcas do passado
Reflitam o brilho de nossa justiça.
O túmulo de nossos pais
Seja a força que nos conduz.
Frente à face da morte
Aceitemos nosso destino como culpados que somos".


Prólogo

                Era mais uma noite escura e chuvosa. Os funcionários do cemitério olhavam curiosos pela janela, querendo descobrir se era verdade a lenda da figura que caminhava por aqueles lados em noites como aquela.
                Quando o relógio marcava 23:47h, viram pela pequena janela um vulto que caminhava em direção a uma pequena capela contantemente iluminada. Essa figura, que não era possível definir se era homem ou mulher, estava coberta com uma capa marrom de couro, com um capuz que cobria-lhe a cabeça, óculos escuro e um lenço enrolado cobrindo o que restava do rosto e protegendo do frio. Pelo seu jeito, era conhecido como "O fantasma negro do cemitério". A grande verdade é que ninguém sabia sua verdadeira identidade.
                O fantasma entrou na capela, pequena, onde um caixão residia sobre uma coluna de mármore e, ao lado, uma coluna vazia com um caixão aberto. a figura olhou para o caixão como quem esperava o dia de repousar eternamente sobre ele.
                Na parede de frente havia uma luminária apontando para uma placa de granito com as seguinte inscrições:
"Ditandai bagi kehidupan
Hidup dengan tangan kotor untuk memanipulasi
Marilah kita menjadi hakim dan algojo
Dari apa yang telah disembunyikan oleh pasir waktu
Tanda dari masa lalu
Mencerminkan kecerahan keadilan kami
Makan nenek moyang kita
Menjadi kekuatan yang mendorong kita
Wajah depan kematian
Menerima nasib kami karena kami semua bersalah"

                A figura ajoelhou diante da placa e ali ficou, como quem recitava alguma reza. Depois, levantou-se, cobriu o caixão com um pano branco e partiu sob os olhares curiosos daqueles homens que sabiam que não veria tal cena até a próxima noite chuvosa.


                O primeiro encontro entre Sara e Joseph, o homem que habitaria seus maiores pesadelos, aconteceu há dez anos, quando Sara era apenas uma menininha de oito anos, pequena, magra, loira, com duas tranças no cabelo que estendiam-se até seus ombros e trajava apenas um vestidinho fino e florido sem mangas.
                Naquela noite, o pai de Sara, empresário e dono de uma grande empresa de exportações de materiais para papelaria e escritórios, comemorava a abertura de mais uma filial, que culminava no aniversário de 40 anos do mesmo. Ele resolvera dar uma grande festa num clube próximo à Floresta das Lamentações, lugar de reserva florestal localizado no extremo norte da cidade de Sordes, habitada por 100.000 pessoas. A empresa era dona de 85% das ações do clube e realizava todos os eventos no mesmo.
                Mas aquela era uma festa especial. O poderoso Sr.Connes  exigira a presença de todos os 734 funcionários da empresa e suas famílias, dizendo que apresentaria naquele dia novidades para o futuro da empresa e dos funcionários. Novidades que nunca vieram ao conhecimento de ninguém, devido a todos os fatos ocorridos naquela noite.
                O relógio marcava 22:00h quando a música cessou. O Sr. Connes pegou o microfone e começou seu breve e último discurso:
                -Senhoras e senhores, gostaria de agradecer a presença de todos. Hoje é um dia muito especial. Além de completar 4 décadas de vida, abrimos uma de nossas maiores filiais nesta data. E é por isso que quero fazer a todos um grande anúncio...
                Ele fora interrompido pelo corte do som. Esbravejou, mas os responsáveis sinalizaram que tudo estava normal.
                Ao virar para o público novamente, fora atingido por um impacto de uma arma de fogo, um tiro certeiro em seu coração, derrubando-o já sem vida.
                O pânico tomou conta dos convidados, que corriam descontroladamente em direção à saída.
                No meio da confusão, a mãe da menina puxou-a pelo braço e as duas saíram pelos fundos acompanhadas por um segurança.
                O caminho que encontraram foi em direção à floresta. Não tiveram tempo de discutir, pois um homem saltou sobre o segurança e golpeou-o com uma espada. A mãe da menina deixou escapar um grito de terror e partiu agarrada no braço da menina. O homem, depois de retirar a espada do corpo inerte do segurança e limpar o sangue, partiu em direção das duas. Seu objetivo era matá-las e estava disposto a fazer isso a qualquer custo.
                Enquanto corriam, a  escuridão cobria as duas, a estrada de terra e pedra insistia em feri-las e parecia interminável.
                Quando chegaram em um lugar bem fechado de mata, pararam para descansar um pouco pois estavam exaustas.
                A mãe acariciou a cabeça da filha e sorriu para ela. Um sorriso dolorido e desesperado, fruto de quem temia pela própria vida e a da filha.
                Por trás, o homem cravou a espada na mulher, respingando sangue sobre o rosto da menina.
                Quando puxou a espada, jogou o corpo da mulher para o lado e olhou em direção da menina:
                -Vejam só, falta apenas você e meu trabalho estará terminado.
                A menina chorava desesperada:
                -Por favor...
                Ele levantou a espada para matar a menina. Foi neste momento que um homem, usando um casaco de couro marrom, com um capuz que cobria-lhe a cabeça, apareceu por trás e transpassou duas espadas no homem, tão violentamente que seu corpo caiu sobre as lâminas já inerte.
                O homem jogou o corpo do assassino para o lado e olhou para a menina:
                -Você está bem?
                Ela correu, abraçou o homem e chorou.
                O homem retirou o casaco e colocou sobre ela, que estava tremendo diante do vento frio que envolvia aquele caminho da floresta. Assim, revelou um rosto redondo, com barbas a fazer, olhos castanhos grandes e profundos e cabelo curto. Ele tocou no rosto da menina e o acariciou, dizendo:
                -Siga essa estrada. Ninguém mais te perseguirá. Vá e encontre uma autoridade policial, eles cuidarão de você.
                -Mas...
                -Menina, você poderia ter morrido. Aproveite esta nova chance que a vida deu. Não olhe para trás e nunca revele de quem você é filha, pois querem te matar.
                A menina secou as lágrimas e olhou para a estrada. Depois, abraçou o homem e partiu, correndo com todas as suas forças. Ao olhar para trás, o homem partia em direção contrária. Ela correu, correu, correu, até encontrar um policial e, desesperada, contar o que aconteceu, sem revelar que era filha do Sr. Connes.
                Aquela noite fora conhecida como "A noite sangrenta de Sordes". Todos os presentes na festa foram brutalmente assassinados. Os policiais investigaram o acontecido, mas não havia nenhuma testemunha. Nenhuma oficialmente, pois sob proteção policial, havia uma menininha loira, que milagrosamente sobreviveu ao assassinato de 1478 pessoas.

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