Epílogo
Joseph
sentou no sofá que fica no apartamento que ele possuía na cidade grande. De lá,
pegou seu celular e ligou para o contratante:
-O
serviço está concluído. O relatório está pronto.
-Que
notícia boa, Joseph. Me encontre no almoço no mesmo restaurante que combinamos
o serviço.
Joseph
levantou e caminhou pelas ruas que tanto conhecia. O que mais queria naquele
momento era entregar o relatório e partir. Precisava de férias. Essa missão
desgastara-o fisicamente e mentalmente. Olhou aquela paisagem urbana e
suspirou.
Caminhou
por meia hora e chegou no restaurante. O homem lia um jornal e tomava um café.
Joseph sentou:
-Gostei
muito de saber que você realizou a missão. Veja esse jornal.
O
jornal trazia duas matérias de Sordes. A primeira falava da jovem que
assassinara muitos homens na cidade e que tragicamente morrera em uma explosão.
A segunda, falava da prisão dos diretores da Mr. Connes por causa de tráfico de
órgãos e envolvimento com a máfia. Joseph deixou escapar um sorriso ao ver a
foto do comandante Barros recebendo uma condecoração por resolver os dois
casos.
Joseph
entregou um envelope para o homem:
-Está
tudo detalhado aqui.
O
homem pegou uma mala e entregou a Joseph:
-Isso
é uma bonificação por ajudar no outro caso. Estavam atrás dessa máfia que
matava pessoas para vender os órgãos há alguns anos. Você conseguiu solucionar
tudo para eles.
Joseph
pegou a mala:
-Foi
sorte.
Eles
almoçaram. Joseph olhou para o homem:
-Vou
tirar umas férias. Essa missão me cansou.
O
homem sorriu:
-O
Presidente da sociedade disponibilizou uma das casas para você. Tem alguma em
especial que você queira a chave?
Joseph
sorriu:
-A
de Sordes.
O
homem assustou-se:
-Esperava
todas, menos essa. Você sabe quea chave está perdida. Além disso, você explodiu
o depósito.
Joseph
sorriu:
-Precisam
de alguém para reconstruí-lo. Eu aproveito e mando notícias de Sordes para
vocês.
O
homem assentiu com a cabeça.
-A
casa é sua. Não temos interesse em usá-la novamente mesmo.
Joseph
levantou e despediu-se do homem.
Ao
chegar no hotel, fez uma ligação. Em minutos, um carro o pegou na entrada. Ele
entrou no carro, que era dirigido por Rocha:
-Meu
amigo, que bom que você veio.
Joseph
pegou a mala, cheia de dinheiro e entregou para Rocha:
-Isso
é um bônus por todos os serviços que você prestou para mim.
-Joseph,
eu não posso...
-Pare
com isso, Rocha. Não conseguiríamos nada sem você. Você é um dos melhores
assassinos da sociedade.
Rocha
sorriu:
-Isso
porque não sou um assassino.
Joseph
concordou:
-Pois
é, você na verdade é o nosso maior colaborador.
Rocha
dirigiu em direção à zona rural. Depois de duas horas e meia de viagem, pararam
diante de uma casinha simples. Foram recebidos pelos pais de Joseph e sua irmã:
-Meu
filho! Estava esperando vocês para o almoço!
Eles
sorriram e entraram. Celebraram as férias com um delicioso almoço em família.
Sara
abriu os olhos. Estava numa cama, vestida com um roupão branco. A sala era toda
pintada de branco.
"Onde
eu estou? Será que essa é a vida após a morte?"
Levantou-se.
Sentia-se um pouco zonza. Na sua frente havia um espelho que cobria toda a
parede. Olhou-se e assustou-se. Seus cabelos estavam cortados e pintados de
preto. Sua sombrancelha fora modificada e estava maquiada.
Procurou
uma porta. Não havia. Gritou:
-Socorro!
Mas
o som parecia preso naquela sala.
Voltou
para a cama. Sentou-se e chorou. Não sabia onde estava. Talvez aquela sala
fosse o seu castigo eterno. Talvez passasse a eternidade sozinha. Mas o que
poderia fazer? Seguira seu destino, e perdera no final. Joseph realmente era o
maior de todos os assassinos.
Alguns
minutos se passaram. Pareceram uma eternidade.
Sara
escutou um barulho. O espelho começou a abrir-se. Ela encolheu-se em posição
fetal. Sentia-se acuada e não podia fazer nada. Nem mesmo tinha armas para lutar.
Quando
abriu-se por completo, viu entrar naquele pequeno quarto uma figura com quem
dividira seus últimos momentos:
-Joseph?
-Oi,
Sara. Que bom que acordou. Venha comigo.
Sara
levantou-se. Saiu pela passagem no meio do espelho. Do outro lado, viu a sala
de uma casa no campo. Uma senhora simpática estendia uma calça jeans e uma
camiseta para ela. Joseph falou:
-Vista
essa roupa.
Ela
concordou. Pegou as roupas, entrou no banheiro da casa e trocou-se. Ao sair,
Joseph a esperava:
-Venha,
vamos comer. Depois te explicarei tudo.
Ela
seguiu Joseph, sem saber ainda se era real ou não.
Na
sala de jantar, havia uma imensa mesa de madeira rústica, com cadeiras ao seu
redor. Na mesa, estavam várias panelas com muitas variedades de comidas
caseiras. Sentados, estavam o pai de Joseph, a irmã e Rocha. Os dois
sentaram-se também e, por último, veio a mãe dele. Ela disse:
-Vamos
agradecer a comida e a bênção da vida. Comam e aproveitem do melhor de nossa
terra.
Todos,
exceto Sara, responderam:
-Amém.
O
almoço foi divertido. Rocha contou alguns casos, o pai de Joseph riu de cada um
deles e também relatou fatos engraçados de seu passado. A mãe comia e repetia
que já havia ouvido aquelas histórias antes. Joseph agia normalmente e segurava
na mão de Sara todo o tempo. Ela comia tudo que a mãe dele colocava no seu
prato, ainda perdida. A irmã, que deveria ter quase a idade de Sara, comia sem
falar muito. Estava preocupada em encher a barriga.
Depois
de longas horas de degustação, Rocha despediu-se de todos e partiu. Os pais de
Joseph disseram que dormiriam um pouco. A irmã foi para o quarto e ficou
estudando com as portas fechadas.
Restaram
na sala Joseph e Sara. Ela ainda estava de mãos dadas com ele, mesmo sem
perceber.
Joseph
acariciou o rosto dela e disse:
-Venha.
Sente-se.
Os
dois sentaram-se no sofá da sala. Joseph iniciou a conversa:
-Desculpe
por você estar assim, sozinha num quarto branco. Mas precisava te manter num
lugar seguro.
-Joseph...
Eu deveria...
-Sim.
Estar morta. Mas não está.
-Por
quê?
Joseph
sorriu:
-Eu
te disse. Há dez anos recebi uma missão. E sempre cumpro minhas missões. Sua
mãe me procurou desesperada, pedindo que a todo custo eu te protegesse. Eu
tentei salvá-la. Mas infelizmente fui atrasado por alguns comparsas de seu pai.
Quando cheguei, sua mãe já estava sem vida.
Joseph
levantou-se:
-Ao
te ver, tentei fazer com que você tivesse uma vida melhor do que a minha,
queria te dar uma nova oportunidade de vida. Por isso mandei você correr. Eu
sabia que havia um policial naquele caminho. Só não imaginava que você fugiria
dele.
Ela
balançou a cabeça:
-Fiquei
com medo. Mas isso ainda não explica o que aconteceu no depósito.
Joseph
prosseguiu:
-Chegarei
lá. Quando soube que você estava naquela casa, comuniquei o fato à sociedade. Requisitei
uma vigilância, e enviamos o Mestre para Sordes. Ele foi autorizado a te
treinar, pois relatou que você era uma potencial assassina. Tentamos fazer da
arte oriental um regulador da sua vida. Aproveitamos para treinar o pequeno
Takashi. Infelizmente você matou os dois. Quando recebemos esse relatório,
ficamos de olho em tudo que acontecia em Sordes. Responsabilizei-me por você.
Eu disse que se algo saísse do controle, eu mesmo a deteria.
Ele
fez uma pausa:
-Tudo
ia bem. Até você resolver chamar a minha atenção. Não só a minha, mas um
poderoso general exigiu que resolvêssemos o caso. Por isso eu fui para Sordes.
Ele
sentou ao lado dela de novo:
-Mas
não poderia te matar. Eu prometi à sua mãe. Por outro lado, eu tinha que acabar
com a assassina.
Ele
respirou fundo:
-Com
a ajuda de Rocha, elaboramos um arriscado plano. Enquanto eu chamava a sua
atenção e forçava sua ação rápida de vingança, ele preparava o depósito para o
encontro final.
Ela
olhou para Joseph:
-E
por que não me impediu de matar aquelas pessoas?
Joseph
deu de ombros:
-Você
tinha direito de executar sua vingança. Além disso, precisava legitimar a
assassina de Sordes.
Ele
riu:
-Por
fim, convenci o comandante Barros que você era apenas uma assassina que
acreditava ser a filha do poderoso Sr. Connes. Assim, quando o depósito
explodiu, ele encontrou o corpo da assassina dentro e, ao realizar um teste de
dna, provará não ser a herdeira.
-E
por que isso?
-Calma.
Uma coisa de cada vez. Na hora que você estava na sala, eu consegui te enganar.
As paredes eram cobertas com um material metálico, mas não era metal. Foi só
para impedir sua ação. Enquanto você estava distraída com meu discurso, Rocha
te acertou com um pequeno dardo. Ele continha um anestésico forte, que a fez
desmaiar. Rocha pegou seu corpo, enrolou em um plástico e colocou no carro. De
lá, retirou o corpo de uma mulher que trabalhava para seu pai, uma das
cientistas do andar secreto. Você a matou. Trocamos os corpos. Depois, deu uma
volta na cidade. Nesse intervalo, sabendo da proximidade de Barros, explodi o
galpão, evitando que descubram algo a mais sobre a sociedade dos assassinos.
Sara
estava espantada:
-Mas
por que tanto trabalho? E o que aconteceu com meus cabelos?
-Visual
novo. A mídia está divulgando os problemas que aconteceram em Sordes. É hora da
herdeira reaparecer.
-Como
assim?
Joseph
sorriu novamente:
-Você
voltará a Sordes e finalmente tomará conta do que é seu por direito. Os responsáveis
pela ligação da empresa com a máfia foram presos. A empresa está sem dono.
Precisam de um rumo ou a mesma será fechada.
Fez
uma nova pausa:
-Sara,
eu tinha que acabar com a assassina. E fiz isso. Eu acabei com a Sara Smith, a
mulher que iniciou uma onda de assassinatos. Está na hora de você viver sua
nova vida. Está na hora de você ser de novo Sara Connes.
Sara
não esperava isso:
-Por
isso o novo visual? Você quer que eles pensem que sou uma nova pessoa?
-Exatamente!
Sara
sorriu. Era estranho estar diante de Joseph, mas sentia-se bem:
-Joseph,
como sabe que eu não vou matar novamente?
Ele
levantou-se e pegou-a pelas mãos:
-Já
resolvi isso. Preciso de umas férias, e o depósito precisa ser reconstruído.
Vou passar um tempo em Sordes, e serei sua parte controladora. O que acha?
Sara
o abraçou forte:
-Claro
que acho ótimo! Desde que eu possa morar com você.
-Eu
esperava por isso, Sara.
Num
súbito momento, ela beijou Joseph. Ele respondeu ao beijo. Ela ficou sem graça:
-Desculpe-me,
Joseph, não sei o que me deu.
Ele
abraçou a jovem e acariciou seu rosto:
-Vamos,
vamos viver uma nova vida.
Os
dois saíram abraçados. Aproveitaram ainda uns dias na casa dos pais de Joseph e
partiram para Sordes. Dessa vez, não como assassinos, mas como visitantes, como
pessoas normais que tiravam férias.
Era
uma noite chuvosa. Os funcionários daquele cemitério estavam à espera. E, como
sempre, lá estava a figura, vestida com uma capa marrom, luvas e capuz.
A
figura entrou na mesma tumba, que ninguém mais tinha a chave. Ao entrar,
retirou o casaco. Revelou-se uma senhora, beirando os 90 anos e com o
rosto marcado pelas rugas da vida.
Parecia que, na juventude, fora uma bela mulher.
Ela colocou-se diante do caixão:
-Oi,
amor. Como você está? Sabe que dia é hoje? Hoje faz setenta anos que tudo
aconteceu. Hoje completam-se setenta anos que eu morri como Sara Smith e você
me trouxe de volta para me tornar a herdeira da Mr. Connes, para me tornar de
novo Sara Connes. Ah, como sinto sua falta. Nossas viagens, nossas aventuras,
cada momento que passamos juntos. E você? Está se sentindo sozinho aqui? Acho
que você deveria ter me esperado para partir, Joseph. Mas tudo bem. Em breve eu
estarei aqui também, ao seu lado. Por isso mantive essa coluna de mármore ao lado da sua.
Ela
secou uma lágrima. Depois, como sempre, recitou o juramento sagrado da
Sociedade Secreta dos Assassinos:
-Marcados pela
vida, Vida que manipulamos com mãos impuras. Sejamos juízes e executores do que
foi oculto pelas areias do tempo. As marcas do passado reflitam o brilho de
nossa justiça. O túmulo de nossos pais seja a força que nos conduz. Frente à face da morte, aceitemos nosso
destino como culpados que somos.
Essas palavras
sempre trouxeram força a Joseph e o mesmo acontecia com ela. Elas os fortalecia
e os unia.
Por fim, saiu
da tumba e trancou-a.
Vagamente,
ela seguiu para um carro que a esperava.
Ela
entrou e fitou o jovem que estava de motorista:
-Meu
filho, você está igual ao seu pai, quando nos conhecemos.
-Mamãe...
O
filho abraçou Sara. Ela olhava para ele e via a imagem de setenta anos atrás,
do seu amado Joseph.
-Vamos,
filho.
-Para
onde, mãe?
Ela
sorriu:
-Para
a floresta. Para o lugar onde nos vimos pela primeira vez.
Sara,
agora idosa, seguiu seu caminho. Revisitara todos os lugares onde um dia
caminhara com seu amado Joseph. Acompanhada por seu filho, contou todas as
aventuras, todos os detalhes, e como ele transformara uma assassina na mais
importante empresária daquele lugar.
Queria que ele lembrasse de tudo e registrasse aquelas memórias, pois
estava certa que a vida que ela e Joseph viveram não poderia ser esquecida.
Fazia
isso, certa de que a morte, que sempre esteve tão perto, agora batia-lhe a
porta. E, finalmente aceitá-la-ia, pois sabia que quando ela chegasse,
descansaria eternamente ao lado do seu eterno amado.
FIM