sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Perseguição - Capítulo 4

CAPÍTULO 4
Dari apa yang telah disembunyikan oleh pasir waktu  - O QUE FOI OCULTO PELAS AREIAS  DO TEMPO

                O relógio marcava 5h da manhã. Joseph escutou o toque do seu celular. Ainda sonolento, levantou da cama, pegou o aparelho e olhou para o nome que aparecia ali. Coçou os olhos e atendeu:
                -Pois não, Barros.
                -Joseph, acho melhor você se apressar.
                -Barros, são cinco da manhã. O que você quer comigo a essa hora?
                Por alguns segundos, fez-se silêncio do outro lado da linha. Só então o comandante teve coragem de falar novamente:
                -Joseph, algo terrível aconteceu.
                -Como assim?
                -Silva bateu com o carro em uma árvore. Houve uma explosão. Ele foi carbonizado.
                Joseph ficou em silêncio por alguns momentos. Barros prosseguiu:
                -Mas tem algo errado aqui, parece que tudo foi armado para isso acontecer. A árvore parece ter sido derrubada propositalmente. Além disso, temos marcas de dois carros na estrada. Parece que houve uma perseguição.
                Joseph respirou fundo, ainda estava um pouco sonolento:
                -Você acha que ela...
                -Sim, eu acho. Se ele ligou para informar que sabemos quem ela é, ela pode...
                Joseph pegou seu casaco:
                -Me encontre no centro de operações, Barros. De lá teremos acesso a mais informações. Agora acalme-se, e não faça nenhuma besteira.
                Joseph trocou de roupas e deixou a pousada. Sentia-se com muito sono, mas nem mesmo um café poderia tomar, pois a padaria estava fechada.
                O dia ainda não havia nascido quando ele entrou no centro de comandos. Logo em seguida, Barros chegou, nervoso, preocupado, atordoado:
                -Joseph, como pudemos deixar chegar a isso? Tínhamos que ter evitado esse encontro de qualquer forma.
                Joseph coçou os olhos, ainda ardendo de sono:
                -Barros, não é assim que funciona. Nós precisávamos que ele passasse a informação para ela. E ele o fez.
                -E pagou com a própria vida. Agora chega. Vou prender esta mulher como suspeita de assassinato.
                Joseph respirou fundo e tocou no ombro do amigo:
                -Você sabe que não funciona assim. Além do mais, não conseguirá deixá-la presa por mais de dois dias, ela vai conseguir um advogado que provará sua inocência e por fim... você pode pagar com a própria vida.
                Barros estava transtornado, mas Joseph tinha razão:
                -Joseph, temos que parar com essas mortes.
                -E iremos, na hora e no momento certo. Só tenha paciência.
                Barros segurou nos dois ombros de Joseph:
                -Então, por favor, me diga qual o seu plano para prender essa mulher.
                Joseph apontou para as cadeiras:
                -Sente aqui. Preciso te contar umas coisas.
                Os dois sentaram nas cadeiras próximas ao computador. Joseph resolveu revelar seu passado:
                -Barros, eu quero que você me ouça com atenção, sem me julgar nem entender errado aquilo que vou revelar. Não sei o que te contaram sobre mim, sobre minhas origens e patentes, mas uma coisa eu sei: é tudo mentira.
                -Como assim, Joseph?
                -Barros, eu não sou policial, investigador, detetive, nem militar. Eu sou um assassino.
                -O quê?
                -Sim, Barros. Eu faço parte de uma organização secreta, criada há milênios, com o intuito de fazer o serviço sujo para a sociedade. Sempre que algo está fora de controle, ou não querem sujar as mãos, os militares nos chamam. Somos nós que perseguimos e eliminamos os piores dos piores. Nós limpamos a sujeira da sociedade.
                -Não estou entendendo. Por que você está me contando isso? E por que eu não sabia disso antes de você chegar?
                -Simples, Barros. Eu precisava de total apoio e confiança de vocês imediato, por isso o dosiê foi criado. Nossa sociedade atua discretamente, poucos conhecem nossa existência. E estou te contando porque sei que posso confiar em você. Porém, ninguém mais pode saber disso. Atuamos nas sombras da sociedade, realizamos nosso serviço com perfeição. E você deve estar pensando: por que um assassino foi enviado para solucionar esse caso?
                -Era a pergunta que eu faria nesse momento.
                Joseph deu um leve sorriso:
                -Eu não estou aqui para prender Sara. Eu estou aqui para eliminá-la.
                Assustado com a revelação, Barros ainda tentou falar alguma coisa, mas foi interrompido por Joseph:
                -E não tente dizer que você não permitirá, pois suas ordens foram para me dar total apoio na operação e seguir meu comando. Já as minhas ordens são para eliminar Sara a qualquer custo.
                Barros ficou mais espantado ainda com a última fala de Joseph:
                -Mas qual o interesse dos militares nessa jovem?
                -Barros, ela é uma assassina profissional. Nós, da sociedade, temos regras a seguir, e temos como controlar um ao outro para que não aconteça de pessoas morrerem sem motivo. Mas Sara mata indiscriminadamente, sem controle. Por isso fui enviado para ser a parte que a controla.
                Fez-se um segundo de silêncio. Joseph continuou:
                -Mas agora precisamos resolver outras coisas. Vamos avisar a família do cabo Silva sobre o ocorrido e providenciar para que o corpo seja sepultado.
                Barros bastou-se em acenar com a cabeça. Estava perplexo. Nos últimos dias trabalhava sob ordens de um assassino. E isso o assustava.

                Sara amanhecera agitada e ansiosa. Foram muitos os acontecimentos da noite anterior, e ela não conseguira digerir tudo. Mas precisava trabalhar naquela manhã para poder manter o disfarce e prosseguir com seu plano. A primeira coisa que descobrira foi que, uma vez iniciado seu plano, não tinha como voltar atrás.
                Ela entrou no prédio e dirigiu-se para a sala onde trabalhava. José a esperava:
                -Como vai você, Sara?
                Ela estava um pouco abatida, mas não queria demonstrar fraqueza:
                -Estou bem, José. Só um pouco cansada.
                José levantou-se, dirigiu-se até a jovem e a abraçou. Ela, sem saber por quê, encostou o rosto nos ombros dele e chorou. Chorou amargamente como há muito tempo não chorava. Ficou assim por alguns minutos, enquanto o seu patrão acariciava seus cabelos. Quando recompôs-se, pediu desculpas ao homem:
                -José, eu...
                -Não diga nada, pequena. Algumas vezes só precisamos de um abraço e de dispersar as lágrimas presas. Mas vamos ao trabalho. Deixei uma lista de coisas que preciso que você realize hoje para mim. Quando acabar, descanse. Creio que você consiga terminar tudo até a hora do almoço.
                José beijou levemente a testa da menina e partiu.
                Sara trabalhou toda a parte da manhã no escritório, separando papéis e organizando parte do material de seu chefe. Aquele abraço, espontâneo, mexeu com ela. Pela primeira vez perguntara-se se estava fazendo a coisa certa. Aquele homem que ela desprezava conseguiu tocar em um lugar do seu coração que ela achava que estava morto.
                Saiu do escritório sorridente. Talvez ainda houvesse esperança de uma vida melhor para ela.

                O destino muitas vezes parece que encarrega-se de formar o caráter das pessoas ou mesmo de lembrar de seu passado e das coisas ruins que aconteceram. E com Sara, parecia que o destino resolvera ser sua memória dolorosa e antiga.
                Ao sair do prédio, ela encontrou-se com Júnior, o filho adotivo mais velho de Eduardo, o homem que abrigara-a na noite da matança.
                -Olá, irmãzinha.
                O sorriso de Sara transformou-se em uma cara de ódio:
                -O que você faz aqui?
                -É assim que cumprimenta o irmão que mais te amou?
                Sara virou em outra direção. Mas Junior segurou-a pelo braço:
                -Espere aí. Ainda estou falando. Quero conversar com você sobre a morte de Eduardo.
                Sara olhou irritada para ele:
                -Não basta ele ter morrido? Ainda quer me atormentar com histórias dele?
                -Não, maninha, não com histórias dele, mas com histórias sobre o veneno que está na garrafa de vinho que você o presenteou.
                Sara olhou para ele de forma estranha. Como descobrira o que ela fizera? Ele prosseguiu:
                -Venha, vamos na minha casa para conversarmos. Você vai entender tudo quando chegarmos lá.
                Sara não intencionava seguir Junior, mas o fez antes que ele fizesse um escândalo e colocasse todo o plano a perder. Ainda mais, poderia dar continuidade ao seu plano. Olhou para o céu, parecia que iria chover no final do dia.
                Enquanto caminhava com Junior, um filme passava pela sua cabeça, o filme de sua vida, algumas das lembranças mais sombrias que perturbavam-na desde a infância.
                Na noite em que seus pais foram assassinados, Sara entrou na casa de Eduardo suja, com seu vestido rasgado e cheio de lama. Ela chorava desesperada. Eduardo pegou a menina, deu um banho nela e a enrolou em uma toalha verde. Depois, levou-a para um quarto onde Junior dormia sozinho. Fora daquele quarto, a casa comportava outros cômodos que eram divididos para os meninos e para as meninas. Junior tinha em torno de 16 anos nessa época.
                O menino assustou-se ao ver seu pai entrar no quarto com aquela menina enrolada numa toalha. Eduardo questionou:
                -O que acha dela, filho? A coitada apareceu aqui, pedindo ajuda. Devemos ficar com ela?         Ao dizer isso, deixou a toalha da menininha cair, revelando seu corpo nu. Aquela cena despertou algo em Junior, um desejo louco de tê-la. Se fosse menos moreno, certamente estaria com a face corada, pois sentira um calor dentro de si. Logo concordou com Eduardo:
                -Lógico que devemos ajudá-la, coitada. Ainda mais que tem uma cama sobrando aqui no meu quarto.
                Eduardo deixou a menina sobre a cama e pegou uma camisa de Junior para vesti-la:
                -Terei que usar isso nela por hora, as meninas não tem nenhuma roupa que sirvam nela e não há nenhuma loja aberta.
                Junior assentiu com a cabeça. O que mais queria era aquela menina ali,  ao seu lado.
                Nos primeiros dias, a tratou bem, procurando aproximar-se dela e deixando-a sempre à vontade em seu quarto. E assim foi por um tempo. Sara, ainda inocente e perdida diante de nova realidade de vida, não importava-se em trocar de roupas na frente de Junior, e ele fazia questão do mesmo. O quarto do rapaz tinha um banheiro próprio, o que dava independência para os dois.
                Junior passou dias lutando contra a loucura que invadia seu ser. Tentou conversar com seu pai, mas não conseguia, pois Eduardo colocava as crianças na casa e não importava-se com elas. Nunca fora realmente pai, somente um homem que acumulava crianças. Se não agisse assim, as coisas poderiam ter tido outro rumo.
                Uma noite, dois meses depois que Sara chegara na casa, Junior não conseguiu mais segurar aquele desejo louco. Ele fizera exercícios, tentara não pensar na menina, leu um livro, tomou um banho frio, assistiu dois filmes na sala. Quando o segundo filme acabou, todos na casa dormiam.
                Era uma noite quente e uma chuva caía na cidade.
                Junior entrou no quarto  e seus olhos fitaram a menina que dormia apenas vestindo uma camisola transparente. Ele trancou a porta e ficaram à luz de um abajur. Ele deitou ao lado da menina, acariciou os cabelos dela e ela despertou:
                -Junior?
                O menino fez um sinal de silêncio com o dedo:
                -Shhh. Fale baixo.
                -O que você está fazendo aqui? Sua cama é a outra...
                -Hoje vou fazer um carinho em você. Só não pode contar para ninguém o que vai acontecer aqui.
                Mesmo que quisesse, não tinha como fugir do rapaz. Ele foi acariciando o corpo dela até retirar toda a sua roupa. Enquanto ela olhava para a janela e via a chuva caindo, ele realizava nela os seus desejos mais intensos.
                Aquele prazer proibido transformara-se em desespero quando o ato acabou. Por fim, descansara alguns minutos e levara a menina para o banho. Lavou-a, enxugou-a e, após trocar os lençóis, devolveu-a para a cama. A menina sentia-se envergonhada e dolorida. Junior deu dois comprimidos para ela e disse:
                -Nunca ninguém pode saber disso, senão você é expulsa dessa casa.
                Ainda com lágrimas no rosto, ela concordou. Ele tocou delicadamente no rosto da menina e beijou-a nos lábios:
                -Não fique assim, você é uma menina muito especial. E o que você fez só prova o quanto eu gosto de você e você de mim.
                Mas ela o odiava. Um ódio que cresceria durante toda a sua vida.

                  Sara caminhou ao lado de Junior até a antiga casa de Eduardo. Ao entrarem, seguiram para o quarto que dividiram por anos. Ainda estava da mesma forma, cada detalhe, cada doloroso detalhe para Sara. Ela sentou na antiga cama:
                -O que você quer, Junior?
                Junior sorriu. Caminhou pelo quarto falando:
                -Eduardo precisou morrer para que eu conseguisse algo contra você. Ainda não entendi po que você o matou, mas descobri que foi você
                Sara tentou desconversar:
                -Não sei o que você está falando.
                Junior segurou-a pelos ombros:
                -Sua tola, a pessoa que te vendeu aquele veneno me deve favores. Foi só citar seu nome e ele me contou tudo. Bom, acho que com isso eu posso até mandar te prender... Ou...
                Sara temia o que iria ouvir:
                -Ou o quê, Junior?
                Junior aproximou-se dela e sussurrou em seu ouvido:
                -Ou podemos esquecer de tudo e em troca você e eu nos divertirmos como fazíamos quando você chegou aqui.
                Diversão. Era a palavra que ele sussurrava nos ouvidos dela todas as noites desde a primeira vez que a forçou a manter relações com ele. Era tarde para Sara voltar atrás, e algo em Junior a atemorizava. Ele era capaz de conseguir o que quisesse dela, pois ela o temia. Talvez ele soubesse disso, e aproveitasse para obrigá-la a realizar seus desejos.
                Temerosa, parecendo a mesma menina assustada que chegara na casa, deitou-se na cama. Estava paralisada, à mercê de Junior. Ele tocou-a e despiu-a cuidadosamente, acariciando e beijando cada parte desprotegida de seu corpo. Aproveitou-se daqueles momentos e satisfez todos os seus desejos. Depois, sussurrou no ouvido dela:
                -Vá tomar seu banho.
                Sara parecia hipnotizada. Ela entrou no banheiro, trancou a porta e abriu o chuveiro. Deixou a água fria cair sobre seu corpo. Sempre pensou que aquela água purificaria seu corpo, enquanto as lágrimas que corriam purificaria sua mente. Fazia isso desde que era uma garotinha apenas.
                Sua mente insistia em relembrar o passado, tudo que sofrera naquela casa com Junior. Lembrou-se até do dia em que teve coragem de contar à Eduardo, que respondera que não era responsável por nada que acontecesse no quarto dela e Junior.
                A água fria continuava caindo sobre seu corpo. Aquelas lembranças a atormentaram por mais alguns minutos. Mas uma voz resolveu falar ao seu inconsciente:
                -Lembre-se de quem você é agora. Não precisa mais ser atormentada por tudo isso, nem mesmo aceitar que tudo se repita. Você é dona de seu destino agora, você decide quem interfere ou não na sua vida.
                Ela ergueu a cabeça. A face que expressava a menina triste transformara-se em um semblante sério, sombrio, frio, a face de uma assassina.
                Ela saiu do banho, secou seu corpo e deixou o banheiro completamente nua. Caminhou pelo quarto, olhou para as duas camas e para uma mesinha que ficava embaixo da única janela. Olhou para Junior, que olhava para ela desfilando pelo quarto:
                -Junior, o quarto continua igual a quando deixei a casa?
                Ele sorriu:
                -Sim, por quê?
                -Até os objetos?
                -Sim, não retirei nada daqui, só minhas roupas.
                Ela sorriu, de canto de boca:
                -É o que eu queria saber.
                Ela aproximou-se da mesinha, abriu a gaveta e abaixou.
                Como ela esperava, Junior levantou e a abraçou por trás, na esperança de continuar aproveitando-se de seu corpo. Ele esfregou-se nela, já excitado com o momento:
                -Sabe de uma coisa, Sara? Você ainda me mata um dia...
                Sara sorriu maldosamente:
                -Exatamente isso que farei agora.
                Ela virou e, diante dos olhos assustados de Junior, fincou uma faca no pescoço dele. Ele caiu, ainda com um último suspiro de vida. Tentou pronunciar alguma coisa, mas as palavras não saíram.
                Sara aproximou-se dele:
                -Lembrei-me da faca que guardei aqui há alguns anos. Tenha uma morte dolorida e sofrida, seu desgraçado.
                Ele olhou desesperado para ela e deu um último suspiro.
                Calmamente, Sara vestiu-se. Depois, penteou os cabelos, foi até o corpo inerte e retirou a faca. Enrolou-a cuidadosamente em uma camisa de Junior que estava sobre a mesa e colocou-a em sua bolsa. Seguiu até o corpo e olhou para ele mais uma vez. Disse em voz baixa no ouvido do morto:
                -Adeus, imbecil. Se pudesse, eu o faria viver de novo só para ter o prazer de te matar novamente.
                Levantou e saiu do quarto sorrindo. Ao bater a porta, disse para si mesma:
                -Acho que preciso de uma folga.
                 
Próximo Capítulo
As origens de Joseph como um assassino serão reveladas. Sara tira um dia de folga e retorna ao lugar onde aprendeu tudo sobre ser uma assassina.

Em breve: Capítulo 5: Tanda dari masa lalu - AS MARCAS DO PASSADO

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