sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Perseguição - Capítulo 5

CAPÍTULO 5
 Tanda dari masa lalu - AS MARCAS DO PASSADO

                Joseph estava sentindo-se cansado. O relógio marcava 23:53h e acordara às 5h com o telefonema de Barros. Mas aquele dia ainda demoraria a acabar, pois após o enterro de Silva, eles foram dar uma assistência à família.
                Seu dia interminável acabou às 3h da madrugada, quando finalmente chegou em seu quarto na pensão, mas não antes de Barros levantar uma questão que o fizera relembrar o passado:
                -Joseph, você é excelente. Não sei como acabou tornando-se um assassino.
                Joseph bastou-se em responder:
                -Alguém precisa limpar o lixo da sociedade, e eu sou um desses preparados para sujar as mãos.
                Saiu do carro e caminhou até a pensão. Em sua mente, permeava apenas um pensamento: "Como se eu tivesse tido escolha".
                Entrou no seu quarto e deitou na cama. A história de sua origem passou pela sua mente como se fosse um filme.
               
                O pai de Joseph, conhecido apenas por Gil, fora o maior assassino de todos os tempos. A Sociedade sempre o enviava nas mais difíceis missões.
                Durante uma grande guerra, Gil e uma grande equipe foram enviados para uma missão diferente: resgatar alguns prisioneiros e eliminar o máximo de inimigos possível no processo. O que a equipe não esperava era a reação dos inimigos. Mesmo sendo preparados para entrar em qualquer lugar escondidos, foram descobertos. Alguns foram mortos na troca de tiro. Por fim, restavam três assassinos. Um deles pisou em uma mina e explodiu. O outro foi atingido por um inimigo na entrada da prisão. Sobrou apenas Gil.
                Usando toda a sua habilidade, ele conseguiu eliminar um por um dos soldados inimigos. Restou apenas entrar na prisão. Caminhou pelas celas, mas a maioria estava com prisioneiros mortos. Resgatou alguns poucos soldados. Um deles apontou para uma porta no final do corredor. Disse, com uma voz fraca e rouca:
                -Tem uma mulher mantida refém lá dentro.
                Gil tocou em seu ombro:
                -Obrigado, soldado. Você foi muito bravo.
                Gil enviara um pedido de reforços, que chegou na prisão pouco depois da saída dos prisioneiros. Assim, foram resgatados sem mais problemas. Ainda deixaram, a pedido do próprio Gil, um pequeno carro para que ele partisse.
                Depois de caminhar alguns metros, tocou na porta. Ela estava aberta. Entrou com todo cuidado.
                No fundo da sala, encolhida em posição fetal, com roupas rasgadas e suja, estava uma mulher. Gil falou antes de entrar:
                - Olá. Não tenha medo. Vim te resgatar.
                Debilitada, parecia ter sido vítima de espancamento e abusos. Ela olhou para Gil, com lágrimas nos olhos. Levantou um braço e balbuciou:
                -Estou...algemada...
                Gil aproximou-se e acariciou seus cabelos:
                -Vou tirar você daqui.
                Ele pegou uma ferramenta no bolso e com uma incrível habilidade abriu a algema. Quando a mulher levantou-se, Gil percebeu que ela estava grávida. Auxiliou-a com cuidado:
                -Com quantos meses você está?
                Ela olhou para ele, triste:
                -Em torno de seis.
                -E o pai?
                Ela abaixou a cabeça. Envergonhada, respondeu:
                -De um desses soldados que guardavam a prisão. Eles...
                Gil abraçou a mulher. Sabia que era uma situação difícil para ela.
                Apoiando  a mulher, Gil saiu da prisão. Do lado de fora, estava apenas o carro que pedira. Ele colocou a mulher cuidadosamente no banco de trás do carro e deu água para ela beber. Depois, disse calmamente:
                -Espere aqui. Vou acabar com isso de uma vez.
                Gil entrou na prisão, certificou-se que todos que estavam dentro da prisão estavam morto, armou um pequeno explosivo com um contador marcando três minutos. Ativou e correu. Entrou no carro, ligou e partiu.
                Quando já estavam bem distante, a mulher assustou-se com o som da explosã. Só então Gil parou o carro e olhou para ela. Estava debilitada, mas era uma bela mulher morena, com olhos parecendo duas jabuticabas:
                -Qual o seu nome?
                Ela sorriu para seu salvador:
                -Me chamo Maria, meu senhor.
                Gil fez um sinal negativo com a cabeça, esboçando um leve sorriso:
                -Senhor não, me chame de Gil. Me diga, Maria, para onde você quer que eu te leve? Acabo de cumprir minha missão e posso te deixar em casa.
                Ela entristeceu-se novamente e respondeu:
                -Não tenho casa, Gil. A guerra destruiu tudo. Os soldados chegaram há  quase um ano, mataram todos os homens da minha cidade e tomaram as mulheres e crianças como reféns. Tentei revidar e fui jogada naquela prisão para ser...o brinquedinho deles.
                Gil secou uma lágrima de Maria com as mãos:
                -Mas agora tudo acabou. Bom, se não tem para onde ir, o que faremos? Sinto-me responsável por você e nunca abandonaria uma mulher grávida.
                Maria olhou para sua barriga:
                -Essa criança... Eu temia por ela e por tudo que poderia passar naquela prisão. A marca da minha vergonha, a minha única razão de sobreviver cada dia. O que faremos, soldado?
                Gil tocou o rosto dela:
                -Não sou um soldado. Não se assuste, mas sou um assassino. Faço parte de uma sociedade que ssó é chamada em casos como este, para matar inimigos, para realizar aquilo que os militares não são capazes. Mas eu preciso de férias. A guerra acabou comigo.
                -Férias?
                -Sim... Definitivas.
                Gil partiu para uma casa em uma cidade distante, onde tinha uma pequena fazenda que produzia o suficiente para ele, Maria e o bebê que chegaria. Já na fazenda, ligou para o presidente da Sociedade Secreta dos Assassinos e solicitou as férias por tempo indeterminado. Explicou-lhe  as razões e, como eram amigos pessoais, foi-lhe concedido o benefício.
                Como assassino, Gil tivera a oportunidade de aprender um pouco de medicina natural durante uns anos que passara defendendo uma tribo na África. Esses conhecimentos forma utilizados naquele momento.
                As ervas medicinais que plantara na fazenda foram o suficiente para cuidar da saúde de Maria e garantir que o bebê ficaria bem até o nascimento.
                Aqueles meses juntos fizeram com que Gil ficasse apaixonado por Maria. Conhecera sua história e ficara encantado com as habilidades que ela possuía. Lamentou não ter conhecido sua família tampouco sua cidade, destruída durante aquela guerra que ele classificou como maldita. Maria venerava Gil, pois fora o homem que a salvara da tortura e da prisão, além de tê-la levado para morar com ele. Por esses motivos, naturalmente tornaram-se amantes apaixonados, unidos por um trágico destino, selados por um amor incondicional.
                O dia que o bebê nasceu foi festejado por Gil. Era um menino forte e saudável, segundo um médico que ele trouxera da cidade que ficava há 20 km da fazenda. Maria alegrou-se tanto quanto Gil e disse:
                -Ele precisa de um nome.
                Gil sorriu:
                -Por que não dá a ele o nome de seu pai?
                Maria surpreendeu-se com a ideia. Mas gostou:
                -Muito bem, então ele será chamado de Joseph. Joseph Neto.
                Os dias foram passando e o menino crescia cada dia mais. Em pouco tempo, Maria recuperara a beleza que lhe fora negada na prisão e tinha em seu coração o sentimento que sempre buscou: paz.
                Gil nunca escondeu a verdade de Joseph. Sempre falava sobre como conhecera sua mãe e do sofrimento que ela tivera na prisão. Em contrapartida, treinava Joseph. Queria que o menino estivesse preparado para qualquer emergência, pois sabia que um dia a Sociedade o chamaria novamente.
                A alegria da família aumentou quando, aos dez anos, Joseph descobriu que teria uma irmã. Comemoraram muito aquele momento. A família tornava-se maior.
                Quando a menina nasceu, foi batizada de Beatriz, nome herdado da mãe de Maria. Ao ver aquela menina tão pequena, Joseph jurou, repetindo o Mantra Sagrado da Sociedade dos Assassinos, que protegeria Beatriz com a própria vida.
                Gil ficava cada dia mais orgulhoso de Joseph. O menino mostrara uma força e uma habilidade incrível. Dominava técnicas de artes marciais, além de manusear qualquer objeto para usar como arma. Recebera de Gil um título sagrado, dado a Gil por seu mestre:
                -Joseph, você é o mais novo Fencing Master.
                -E o que isso significa?
                -Numa tradução livre, o Supremo Mestre das Armas.
                Gil orgulhava-se do bom treinamento que fizera com Joseph. Conseguira que o filho tivesse um desempenho acima do seu.
                Dezesseis anos passaram-se desde que Gil pedira uma dispensa da sociedade. Mas no início da primavera, tudo mudaria. Gil recebera um telefonema do seu amigo pessoal e presidente da Sociedade:
                -Gil, temos um problema. Os nossos melhores homens foram assassinados junto com as famílias.
                -Hum. Isso me preocupa.
                -Sim. Há ainda outro detalhe: todos que morreram participaram de alguma forma da última guerra que você participou. Estou te ligando por dois motivos. Um: tome cuidado, você e sua família. Dois: precisarei te colocar em atividade novamente. Você é o melhor, talvez seja o único capaz de pegar esse inimigo.
                Gil temia esse dia, o dia que retornaria. Mas não tinha como fugir de seu destino:
                -Envie alguém para me pegar de carro. Seja discreto.
                -Temos um novo recruta, conhecido como Rocha. Ele chegará amanhã de manhã em sua casa.
                -Estarei pronto.
                Joseph brincava com Beatriz, sua irmã, que estava com quase seis anos, enquanto sua mãe costurava umas roupas próximo aos dois. Repentinamente, dois homens vestindo ternos pretos, surgiram e apontaram espadas para eles:
                -Silêncio. Ou as crianças morrem.
                Do lado de fora, Gil escutou um barulho e sentiu uma dor. Fora baleado na perna. Virou para ver de onde vinha o tiro, mas nada podia fazer. Dois homens o arrastaram para a frente da casa.
                Sangrando, o assassino sabia que estava diante dos homens que mataram seus amigos:
                -O que querem aqui?
                Um outro homem desceu de um carro e aproximou-se:
                -Veja quem achei, o maior de todos os assassinos. O homem que destruiu minha prisão e acabou com minha guerra.
                Aquele homem era forte, aparentava ter em torno de cinquenta anos, trajava terno azul marinho, um chapéu e usava óculos escuro. Ele prosseguiu:
                -Hoje é o dia, Gil. O dia da sua morte.
                Virou as costas para o assassino e deu uma última ordem antes de entrar no carro e partir:
                -Matem todos. Mas comece com a família dele. Faça com que ele sofra.
                Gil sentia-se impotente pela primeira vez em sua vida. Seus filhos e sua esposa estavam em perigo.
                Dentro da casa, através de um rádio, o homem recebeu a ordem de matar a família de Gil.
                Antes que pudesse tentar, Beatriz pulou sobre seu braço e o mordeu. O homem, irritado, jogou-a contra a parede e puxou sua espada, para golpeá-la e matá-la.
                Joseph pulou sobre a menina, derrubando-a e salvando a vida dela. A ponta da espada fez um rasgo no lado esquerdo do seu rosto, que tornar-se-ia uma cicatriz que o acompanharia pelo resto de sua vida.
                O corte foi o estopim para despertar o instinto assassino de Joseph. Quando caiu, já com o rosto sangrando, pegou uma tesoura que usava na brincadeira com sua irmã e lançara-a com força e precisão, acertando o olho direito do homem que tentara matá-la. O segundo homem partiu com sua espada. Mas era tarde. Joseph já estava de pé, tomara a espada do primeiro homem e, com um golpe certeiro, decepara a cabeça do segundo. Imediatamente fincou a espada no coração do primeiro para garantir que estivesse morto.
                Joseph abraçou a irmã e a mãe:
                -Vocês estão bem?
                As duas choravam. Ele secou as lágrimas com as mãos. Maria olhou para o filho e lembrou do dia que conhecera Gil.
                O garoto levantou e pegou as duas espadas, que carregaria para todas as suas grandes batalhas. Armou-se também de uma pequena pistola.
                O rádio recebeu uma nova mensagem:
                -Onde eles estão? Traga-os para fora.
                Joseph pegou o rádio, seguiu até uma janela, de onde viu os dois homens com armas apontadas para Gil. Ali, ele apontou a pistola para o homem que estava com o rádio na mão e disse:
                -Eles estão mortos. Assim como você.
                E atirou. A bala transpassou a cabeça do homem, que caíra morto instantaneamente.
                Aproveitando-se da distração do último homem ao ver o companheiro morto, Gil pegou uma pedra caída no chão e levantou-se rapidamente, golpeando a cabeça dele.
                Gil estava ferido e irritado. Golpeou o homem até que sua cabeça rachasse e a vida deixasse seu corpo. Fora uma morte dolorida. Ao ver que estava livre dos inimigos, Gil caiu.
                Joseph pegou o pai no colo e colocou no sofá. Com a ajuda da mãe, retiraram a bala alojada na perna dele e cuidaram da ferida.
                Horas depois, Gil acordou, cercado pela família. Sua primeira fala foi:
                -Não sabem como me alegro em ver que estão bem. Belo trabalho, meu filho querido.
                Apesar de assustada, Maria vivera horrores na guerra e conseguira acalmar Beatriz, que ficara com um machucado na cabeça devido a queda que sofrera.
                Na manhã seguinte, o recruta Rocha chegara na fazenda. Ao entrar, assustou-se ao ver quatro corpos estirados ao lado da casa e Joseph cavando uma cova.
                Mancando e apoiado numa bengala, Gil apareceu:
                -Você deve ser o Rocha. Não se assuste, garoto. Esses não nos perturbarão mais.
                Rocha ajudou Joseph a cavar o buraco e a enterrar os quatro corpos. Ao terminarem, entraram na casa. Gil anunciou para a família:
                -Tenho que pegar o responsável por isso. Não posso deixar que corram o risco de morrer de novo.
                Maria tentou questionar:
                -Mas você está ferido.
                -Sim, mas sou o melhor que eles tem. Os outros morreram pelas mãos desse grupo, e por pouco não tivemos o mesmo destino.
                Mas era visível que Gil precisava recuperar-se da ferida na perna. Joseph levantou-se e tomou a palavra:
                -Então está decidido. Pai, você leva a mamãe e a Beatriz para um local seguro. Eu vou pegar o responsável por tudo isso.
                Gil nunca esperava essa reação de Joseph:
                -Filho, não...
                -Não complete, pai. Você sabe que sou o mais indicado no momento para isso. Não posso deixar que você abandone a mamãe e Beatriz. Além do mais, está ferido. Eu posso fazer isso, você me treinou para isso.
                Mesmo sem concordar, Maria e Gil sabiam que era verdade. Gil ligou para o presidente e explicou a situação. Não tinham escolha, por isso a Sociedade aceitou que Joseph fosse em lugar do pai.
                Joseph pegou as duas espadas, algumas armas e uns materiais de uso pessoal. Ele beijou a mãe e a irmã e deu um forte abraço no pai, desejando que ele se recuperasse logo.
                Antes de sair, Gil ainda entregou a ele um papel com a placa do carro que o homem partira. Joseph agradeceu e partiu com Rocha.
                Em dois dias o caso fora solucionado e Joseph entregara a cabeça do responsável para o presidente da Sociedade.
                Desde aquele dia, nunca mais deixara de participar das mais difíceis missões, cumprindo sempre o que lhe era pedido. Tornara-se o novo número um da Sociedade, o substituto do seu pai, que pudera se aposentar e cuidar da sua família.
               
                As lembranças de tudo que passara com sua família permeavam a cabeça de Joseph enquanto tentava dormir. Quando finalmente conseguira, estava próximo da hora de levantar para mais um dia onde teria que avançar no caso de Sara.

                Sara saíra da casa onde deixara o corpo de Júnior quando a noite começava a chegaqr na cidade. Estava cansada e precisava relaxar. Resolvera seguir para uma casa isolada, que poucos sabiam da existência, e que fora o lugar onde aprendera a ser uma assassina. 
                A casa ficava no pé de uma montanha. Era feita de madeira, tinha apenas um quarto, uma cozinha e um banheiro. Atrás, uma área de treino com várias armas trancadas em um pequeno depósito. No fundo, um antigo poço artesiano desativado e uma cisterna, que recebia água diretamente de uma mina da montanha.
                Sara pegou uma antiga chave, abriu a porta e entrou. Dentro, os móveis estavam cobertos por plásticos, da forma que ela deixara para que não estragassem. Ela trancou-se dentro da casa, foi para o quarto, retirou o plástico da cama e deitou. Resolveu dormir ali, precisava ficar longe de tudo por umas horas.

                Sara descobrira aquela casa quando tinha dez anos. Seu irmão Junior tinha um amigo com traços orientais chamado de Takashi. Nunca soube se era o nome verdadeiro dele ou se era apenas um apelido dado pelos colegas de turma. O fato era que esse menino era temido na rua e que lutava como ninguém. Ele morava na casa da montanha com seu velho pai,  que era o seu mestre, o homem que o treinava todos os dias, segundo o próprio garoto.
                A menina viu ali uma oportunidade de mudança. Sofria abusos há dois anos e não tinha como defender-se. Artes marciais poderiam ser a solução. Mas como conseguir aprender a lutar?
                Numa noite, enquanto Junior abusava de seu corpo, ela disse:
                -Junior, peça ao seu amigo Takashi para que eu possa aprender com o mestre dele também.
                Mergulhado em êxtase, sem atentar ao que a menina dizia, ele concordou.
                Na manhã seguinte, Sara perseguiu Junior o dia todo, para que cumprisse a promessa. Sem ter escape, ele ligou para Takashi e disse que sua irmã queria aprender com o pai dele.
                Dois dias passaram, sem nenhuma resposta. Por fim, o pai do garoto disse que conversaria com a menina.
                Sara foi até a casa da montanha, e encontrou um senhor alto, branco, com barba falhada:
                -Eu sou o Mestre. Entre.
                Sara estava ansiosa demais, ao ponto que seu corpo tremia diante do homem. Ele começou a questioná-la:
                -Pequena, por que quer aprender a lutar?
                Sara estava pronta para essas perguntas. Respondeu, sem titubear:
                -Quero aprender a me defender. Sou jovem e sei como as pessoas são cruéis.
                O homem coçou a barba, um pouco preocupado:
                -Vejo em seus olhos um pouco de medo e de ódio.
                -Senhor, eu vi meus pais sendo mortos. Mesmo sabendo que a pessoa que fez isso também morreu, sou assombrada pela imagem dele todas as noites.
                O Mestre levantou-se:
                -Você começa amanhã. Quero você aqui às 7 horas da manhã.
                Sara ficou entusiasmada. Foi para casa e, naquela noite, não importou-se com nada do que Junior fazia com ela, pois sua mente estava divagando sobre o dia seguinte.
                Os treinos começaram. Sara e o filho do Mestre treinavam juntos. Aos poucos, ela destacava-se pela sua determinação em aprender cada golpe. Por meses, no treinamento corpo a corpo, ela perdia para Takashi, mas por fim, ela passou a equilibrar a luta.
                Um ano depois, iniciaram-se os treinamentos com armas. Ela demonstrou incrível habilidade com espadas e armas de fogo. Aos poucos, Takashi a odiava por chamar tanto a atenção de seu pai, que constantemente a elogiava.
                A paz cessou no dia em que Takashi estava na rua caminhando e encontrou com um garoto mais fraco. O garoto estava quieto, sentado no banco da praça, mas Takashi resolvera que queria sentar ali. Ele empurrou o garoto e lhe aplicou um chute. O garoto estava caído, machucado, e Takashi iria bater ainda mais nele.
                Sara passava pelo mesmo lugar e viu a cena. Ela correu para cima de Takashi e o segurou, gritando:
                -Seu covarde, não deixarei que bata nele!
                Irritado, Takashi conseguiu se soltar,  mas a batalha já estava armada. Várias pessoas cercaram os dois e queriam ver o desfecho daquilo.
                Takashi partiu para cima de Sara, que defendia-se de cada golpe. Quando viu que o garoto deixou uma abertura, aplicou um chute em sua barriga. A dor foi instantânea. Coberta de fúria, Sara ainda socou os dois olhos do menino e chutou-o no peito, fazendo com que caísse sobre a terra, machucado, sem forças e humilhado. Ao ver a multidão, Sara cessou de bater no garoto e disse:
                -Da próxima vez, lembre-se de tentar bater em alguém que pode se defender.
                Durante uma semana, Takashi não apareceu nos treinos. Soubera pelo Mestre que ele estava ainda recuperando-se do acontecido. Além disso, o próprio Mestre castigara-o por ser covarde.
                Mas Takashi planejava vingar-se de Sara.
                Numa tarde, o menino cercou Junior e levou-o para um lugar isolado. Lá, pegou uma pistola pequena e apontou para o garoto:
                -Diga-me tudo sobre Sara. Quero alguma coisa para poder derrotá-la.
                Junior tremia. Ele contou tudo que sabia, mas nada parecia suficiente. Até o momento em que citou o fato de abusar constantemente dela. Takashi sorriu. Encontrara o que queria.
                Os dias passaram e ele nada dizia. O incidente pareceu esquecido.
                Os dois trenavam com espadas naquela tarde e por duas vezes Sara já tinha vencido o menino. Deram um intervalo, enquanto o Mestre preparava um chá para ambos.
                Takashi levantou-se e disse perto do ouvido dela:
                -Veja só, a menina irritadinha. Imagine o que acontecerá se eu revelar tudo que você e seu irmão fazem à noite no quarto.
                Sara arregalou os olhos e uma fúria invadiu seu ser. Takashi pegou a espada e disse:
                -Vamos acabar com isso.
                Sara pegou a espada e deixou toda sua fúria tomar conta de seus atos. Ela golpeou com uma grande ferocidade, enquanto Takashi tentava desesperadamente defender-se. Não era o que ele esperava.
                Com um golpe mais forte, ela derrubou a espada dele, que estava exausto:
                -E agora, Takashi?
                Ela circulava o garoto. Disse, de forma fria:
                -Quero você de joelhos.
                O garoto xingava Sara de todas as formas possíveis, tentando ganhar tempo para pegar sua espada. Quando finalmente colocou a mão na mesma, sem piedade, Sara golpeou o seu pescoço, fazendo um corte profundo e matando o garoto na mesma hora.
                Ao escutar um alvoroço, o Mestre correu para ver o que acontecia. Ele chegou no momento em que Sara preparava-se para acertar o garoto com o golpe fatal. Ele correu em direção da garota, gritando:
                -Sara, pare com isso!
                Mas era tarde. Ele vira o pescoço do filho sendo cortado e a vida dele sendo retirada. A raiva invadiu seu ser:
                -Sua desgraçada!
                Sara viu seu Mestre correndo em sua direção e pegando alguma coisa. Ainda dominada por aquela fúria, não esperou nada. Correu em direção dele e fincou a espada no coração do Mestre.
                Foi essa a primeira vez que ela matou. Quando acalmou-se, sentia medo, mas ao mesmo tempo sentia um prazer inigualável. Já pensava como uma assassina.
                Ela arrastou os dois corpos e os jogou dentro de um poço artesiano desativado. Por cima, pôs alguns sacos velhos, jogou um pouco de gasolina que encontrara na casa e pôs fogo. Tampou o poço com uma pesada tampa de concreto que encontrara.
                Ao perceber que estava sozinha, juntou todas as armas e trancou o depósito. Entrou na casa e revirou todo o material do Mestre.
                Escondido no quarto, embaixo da cama, estava um baú com livros e vídeos falando sobre a Sociedade Secreta dos Assassinos. Havia informações sobre cada membro e cada família, além de vídeos sobre treinamento e registro de todas as operações realizadas nos últimos vinte anos.
                Durante semanas, Sara estudou aquele material. Com ele aprendeu ainda mais sobre a arte de matar. Mas sua maior surpresa foi encontrar no  meio  de tudo um dossiê sobre Joseph.
                Desde esse dia, ela dedicara semanas aprendendo sobre o maior de todos os assassinos, sua forma de agir, detalhes de suas missões e técnicas de ataque.
                Foi quando iniciou o seu plano. Um plano sombrio, regado de ódio.

                As lembranças a atormentavam naquela noite. Tentava dormir, mas não conseguia. Pela janela, viu o sol nascer para mais um dia. Levantou-se, pegou suas coisas, trancou a casa e partiu para a cidade. Sentia-se cansada.



Próximo Capítulo
Uma explosão na praça central vai colocar o Comandante Barros e Sara frente a frente pela primeira vez. Enquanto isso, Joseph investiga detalhes sobre as operações da Mr Bonnes.

 Em breve: Capítulo 6 - Mencerminkan kecerahan keadilan kami - Reflitam o brilho de nossa justiça

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