sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Perseguição - Capítulo 7

Capítulo 7
Makan nenek moyang kita - O TÚMULO DE NOSSOS PAIS

                Sara amanhecera um pouco desanimada. Era o feriado de Finados, o  dia dos mortos e, por tradição desde o dia sangrento, início do Manifesto Pela Vida, comemoração que lembrava cada um dos mortos naquele dia. As lojas fechavam uma porta, a prefeitura era coberta de preto, as pessoas andavam menos pelas ruas, os carros não usavam as buzinas e não havia aula na escola. Eram 3 dias de luto em Sordes. O último dia era o aniversário do dia sangrento. Naquele ano completaria  10 anos a maior chacina da cidade de todos os tempos.
                Todos os anos ela seguia a mesma tradição. Ela saía de casa, comprava flores e levava ao túmulo onde seus pais foram enterrados. Naquele ano, tudo o que ela queria era companhia. Mas não tinha. Silva e o dono da padaria estavam mortos. Eduardo, seu pai adotivo, e Junior, seu irmão adotivo, também. Os outros filhos adotados não estavam na cidade, pois temiam o que aconteceria a eles. Sentiu-se só.
                Ela saiu da casa onde estava abrigada e caminhou até o centro da cidade. Viu os destroços do que um dia fora a padaria e entristeceu-se mais ainda. Do outro lado, um jovem vendia flores. Caminhou até ele e comprou margaridas, uma grande quantidade. Era a flor preferida de sua mãe.
                Queria conversar com alguém, compartilhar seus sentimentos, mas não havia ninguém. Pela primeira vez em sua vida sentiu-se só. Mesmo em seus dias mais difíceis, mesmo as pessoas mais desprezíveis, sempre houve alguém. E todos esses "alguéns" estavam mortos.
                Solitária, triste e pensativa, seguiu sua caminhada.
                No centro da cidade, pessoas preparavam-se para o primeiro dos três dias de luto. Alguns estavam desde a madrugada sentados na praça com cartazes e fotos das pessoas que morreram naquela noite dez anos atrás. Outros faziam um protesto silencioso contra a omissão  das autoridades e os dez anos sem solução do caso.
                Sara olhava para tudo aquilo e pensava:
                "Tolos. Se soubessem a verdade, não perderiam tempo. Eles nunca serão culpados por esse dia."
                Ela caminhou até o cemitério, que ficava há 40 minutos do centro da cidade. O movimento de pessoas era grande devido ao feriado, e a segurança fora reforçada. Mesmo assim ela caminhou sem nenhum problema.
                No final do cemitério havia uma espécie de capela onde os corpos dos pais de Sara estavam trancados. Era como um jazido perpétuo da família. Ali ficavam os restos mortais de cinco gerações da família do pai de Sara. E os últimos corpos foram postos há dez anos. Três caixões: do pai, da mãe e um simbólico dela própria, desaparecida naquela noite em meio a confusão.
                Sara caminhou por entre os túmulos e lágrimas insistiam em correr em seu rosto. Sempre que ali chegava, as lembranças daquela noite voltavam a sua mente e um sentimento de tristeza, de dor, de angústia, de ódio, permeava seu coração.
                De longe viu um homem abaixado em frente a porta do túmulo de seus pais. Achou ser um dos coveiros. Mas a medida que ia aproximando-se, não tinha mais tanta certeza.
                Quando já estava bem perto, notou que o homem estava ajoelhado e parecia  repetir uma espécie de reza. Mas ele falava baixinho, e não era possível compreender o que dizia.
                Aproximou-se devagar. Respirou fundo, intencionando chamar o homem. Mas antes que o fizesse, ele virou-se e encarou Sara com olhos  sarcásticos:
                -Olá, Sara.
                Ela sentiu o corpo estremecer. Por um momento, pensou que desmaiaria. O sangue parecia ferver em casa veia de seu corpo:
                -Jo...Joseph!?
                Ali estava ele, dez anos depois, na frente dela, falando com ela. Sentiu-se novamente aquela menina inocente. fugindo desesperadamente por sua vida. Não sabia como agir. Ficou ali, paralisada diante dele. Queria correr, queria finalizar seu plano, mas não podia fazer nada. Ele levantou-se e ficou diante dela:
                -Acalme-se, Sara. Sei que ainda não é o dia certo.
                Ela ficou ainda mais assustada. Como ele poderia saber do seu plano?
                Por um instante ainda ficou estática. Fechou os olhos  e abriu-os, já agindo  normalmente:
                -O que você faz aqui, no túmulo de meus pais?
                Joseph olhou para ela e sorriu:
                -Olhos de assassinos, os olhos  que esperava ver em você.
                Deu uns passos em  direção dela e prosseguiu:
                -Agora que já chamei sua atenção e despertei em você os instintos que queria, você vai me ouvir.
                Sara estava extremamente irritada. Puxou um pequeno revólver e apontou para Joseph, gritando:
                -O que você faz aqui?
                Joseph riu:
                -Ha, ha, ha. Eu sei que você não vai atirar. Não estragaria seu plano por causa disso. E não pense que não sei o que pretende...
                E então falou com uma voz tão atemorizante que até Sara tremeu:
                -E então veremos quem é o melhor assassino.
                Aquela frase soou tão intimidadora que ela tremeu as mãos. Joseph olhou para a capela e sorriu de novo:
                -Mas não perderia meu tempo aqui para discutir aquilo que é tão lógico. Estou aqui para te falar que você deixou passar um detalhe importante.
                Sara desistiu da arma. Abaixou-a e guardou-a:
                -O que quer dizer, Joseph?
                Ele olhou seriamente para ela:
                -Você sabe o que tem guardado dentro do túmulo de seus pais?
                Sara ameaçou responder, mas foi interrompida:
                -Não diga nada, menina. Você não viu o que foi posto aí dentro. Você acreditou no que te disseram. E te disseram que seu pai e sua mãe estão enterrados aí. Mas as portas foram lacradas há dez anos e você nunca viu aberta. Na verdade acho que ninguém abriu desde então...
                Sara parecia irritada:
                -Cale-se, Joseph. Não deixarei você entrar no túmulo de meus pais.
                Joseph riu e continuou:
                -Não tenho interesse de entrar, Sara. Meu interesse é só te mostrar a verdade antes que tudo isso termine. Quero que você entenda tudo antes do dia final.
                Ele caminhou um pouco e parou. Olhou para trás e fitou aquela face to bela que fora transformada em uma assassina:
                -Minha pergunta é:  Você não quer saber o que realmente há no túmulo de seus pais?
                Virou as costas e partiu sem olhar para trás.
                Sara ficou ali, olhando para ele, perplexa.

                Joseph saiu do cemitério e caminhou para a cidade. O seu telefone tocou. Ele pegou e olhou meio irritado para o número que apareceu. Atendeu com raiva:
                -O que você quer?
                Do outro lado estava o homem  que havia feito o contato com Joseph:
                -Joseph, o contratante quer saber do andamento do caso.
                Joseph falou, irritado:
                -Diga-o que em dois dias tudo será resolvido e que em três dias ele receberá o relatório com todos os detalhes.
                O homem ficou em silêncio. Não discutiria com Joseph em nenhum momento. Entre os assassinos corria uma lenda que um homem duvidou do prazo dado por Joseph. Ele teria cumprido o prazo e o homem pagara com a vida.
                -Deixarei tudo pronto. Você me encontra no mesmo restaurante?
                -Em três dias, na hora do almoço.
                Joseph desligou o telefone e seguiu para a pensão. Precisava descansar e preparar-se para o que aconteceria naqueles dias.

                Sara ficou para por alguns minutos sem conseguir reagir. Seu corpo parecia paralisado diante do encontro. Esperava encontrar Joseph, mas nunca no dia em que sentia-se mais fragilizada.
                Olhou novamente para a pequena capela criada para colocar os corpos de seus pais. Em um jarro, estavam postas margaridas. As flores preferidas de sua mãe.
                Com muita raiva, chutou o vaso de flores. Depois, pegou as flores que ela levara e depositou-as na porta do túmulo.
                Levantou os olhos e fitou a corrente e o cadeado. Tomou uma difícil decisão:
                -Vou abrir esse túmulo hoje.

                Joseph seguiu para a central de comandos. Ali encontrou Barros, que caminhava impacientemente de um lado para o outro:
                -Joseph! Ainda bem que você apareceu.
                -O que houve, Barros?
                Ele suspirou:
                -Eu encontrei com ela ontem, na hora da explosão. Mas uma explosão secundária fez com que ela fugisse. Se não fosse isso, ela estaria aqui, presa.
                Joseph mostrou-se irritadíssimo:
                -Você é louco? Quer acabar com tudo? Quantas vezes já te disse que eu estou cuidando de tudo? Barros, você assinou sua sentença de morte. Ela fará o necessário para acabar com sua vida. E pode ser que nem mesmo eu possa impedir isso.
                Barros deu um soco na parede:
                -Joseph, não aguento mais vê-la solta e não fazer nada.
                Joseph demonstrou ainda mais irritação:
                -Idiota! Em dois dias tudo estará acabado. Não podia esperar só mais um poouco? Dentro de dois dias resolverei tudo e partirei de Sordes. Agora me responda: se você morrer, quem vai fechar o caso? Quem será a pessoa que irá a público dizer que o assassino se foi? O único motivo de você saber de toda a operação é que você será responsável por tudo isso.
                Virou em direção da porta e acrescentou antes de sair:
                -Se estiver vivo até lá.

                Anoiteceu e o primeiro dia do festival dos mortos teve um discurso político-partidário, que fez imensas promessas fúteis à população.
                Sara passou em meio aquilo tudo e seguiu para o cemitério.  Carregava uma bolsa com algumas ferramentas.
                Ela caminhou até o cadeado que fechava o túmulo de seus pais e pegou um martelo e uma espécie de chave de fenda. Com aquilo, golpeou o cadeado o quanto pode, mas nem ele nem a corrente cediam. Forçou mais ainda, pegou uma arma de fogo, atirou, e nada. Pegou uma de suas espadas e deu diversos golpes, em vão. Por fim, caiu de joelhos, exausta e fracassada. Neste momento, percebeu que por mais que fosse uma assassina fria, ainda era apenas uma jovem com um corpo magro e que não tinha força suficiente para realizar a simples tarefa de abrir uma corrente. Chorou. Deixou as lágrimas caírem e banharem as flores que deixara no túmulo pela manhã. Ali ficou por alguns momentos.
                Um brilho fez com que ela despertasse novamente. Olhou para cima  e viu Joseph caindo sobre ela com duas espadas em mãos. Só teve tempo de saltar para o lado.
                Joseph caiu golpeando a corrente com suas duas espadas. As correntes caíram como se fossem feitas de papel. A força do golpe, o material da espada e a precisão de Joseph foram fundamentais para o sucesso.
                Sara ficou de pé e  falou, extremamente irritada:
                -O que faz aqui de novo?
                Ele sorriu sarcasticamente:
                -O mesmo que você. Descobrindo o que está escondido aqui dentro.
                Ele golpeou a porta do túmulo com o pé, e a mesma abriu. Dentro estava escuro. Joseph pegou uma lanterna que estava na mochila que carregava e entrou. Sara foi atrás dele.
                Dentro, ele apontou a lanterna para os quatro cantos da tumba, e só encontrou duas mesas de mármore onde deveriam estar os caixões com os corpos. Mas os mesmos nunca tinham sido usados, e até mesmo os plásticos de proteção ainda o cobriam.
                Joseph riu, como quem confirma uma evidência:
                -Eu estava certo! Os corpos não estão aqui!
                Sara avançou em direção de Joseph:
                -O que fez com os restos mortais de meu pai?
                Joseph olhou para ela com seu olhar intimidador:
                -Você viu que eu abri a porta na sua frente.
                Ele pegou um livro dentro da mochila e entregou a Sara:
                -Aqui está o registro da construção da capela. Foi feita um ano antes das mortes e desde então nunca foi aberta.
                -O que isso quer dizer?
                Joseph olhou para ela:
                -Que existe muito a descobrir em dois dias.
                Joseph pegou a chave que ativava o elevador da empresa e entregou a Sara:
                -Na empresa de seu pai, os elevadores tem um andar travado. Essa chave a levará até lá. É onde você saberá a verdade.
                Virou e saiu caminhando.
                Sara ameaçou gritar algo, mas não o fez. Joseph virou e completou:
                -Você vai precisar de uma senha para acessar uma sala. E tem somente uma pessoa que sabe essa senha: José, seu chefe. Mas ele não te dará tão fácil. Procure-o e pegue a senha, assim conseguirá saber a verdade.
                Joseph seguiu seu caminho e desapareceu na escuridão da noite.
                Sara, sem saber o que fazer, ligou para José. Descobriu que ele estava no hospital entre a vida e a morte.

Próximo Capítulo
Sara consegue a senha que precisa para acessar o andar secreto da empresa, lugar que trará uma surpreendente revelação para Sara. Mas que revelação será essa que pode mudar todo o rumo de seu plano de vingança?

Em breve: Capítulo 8 - Menjadi kekuatan yang mendorong kita  -  Seja a força que nos conduz

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