Capítulo 7
Makan nenek moyang kita - O TÚMULO DE NOSSOS PAIS
Sara
amanhecera um pouco desanimada. Era o feriado de Finados, o dia dos mortos e, por tradição desde o dia
sangrento, início do Manifesto Pela Vida, comemoração que lembrava cada um dos
mortos naquele dia. As lojas fechavam uma porta, a prefeitura era coberta de
preto, as pessoas andavam menos pelas ruas, os carros não usavam as buzinas e
não havia aula na escola. Eram 3 dias de luto em Sordes. O último dia era o
aniversário do dia sangrento. Naquele ano completaria 10 anos a maior chacina da cidade de todos os
tempos.
Todos
os anos ela seguia a mesma tradição. Ela saía de casa, comprava flores e levava
ao túmulo onde seus pais foram enterrados. Naquele ano, tudo o que ela queria
era companhia. Mas não tinha. Silva e o dono da padaria estavam mortos.
Eduardo, seu pai adotivo, e Junior, seu irmão adotivo, também. Os outros filhos
adotados não estavam na cidade, pois temiam o que aconteceria a eles. Sentiu-se
só.
Ela
saiu da casa onde estava abrigada e caminhou até o centro da cidade. Viu os
destroços do que um dia fora a padaria e entristeceu-se mais ainda. Do outro
lado, um jovem vendia flores. Caminhou até ele e comprou margaridas, uma grande
quantidade. Era a flor preferida de sua mãe.
Queria
conversar com alguém, compartilhar seus sentimentos, mas não havia ninguém.
Pela primeira vez em sua vida sentiu-se só. Mesmo em seus dias mais difíceis,
mesmo as pessoas mais desprezíveis, sempre houve alguém. E todos esses
"alguéns" estavam mortos.
Solitária,
triste e pensativa, seguiu sua caminhada.
No
centro da cidade, pessoas preparavam-se para o primeiro dos três dias de luto.
Alguns estavam desde a madrugada sentados na praça com cartazes e fotos das
pessoas que morreram naquela noite dez anos atrás. Outros faziam um protesto
silencioso contra a omissão das
autoridades e os dez anos sem solução do caso.
Sara
olhava para tudo aquilo e pensava:
"Tolos.
Se soubessem a verdade, não perderiam tempo. Eles nunca serão culpados por esse
dia."
Ela
caminhou até o cemitério, que ficava há 40 minutos do centro da cidade. O
movimento de pessoas era grande devido ao feriado, e a segurança fora
reforçada. Mesmo assim ela caminhou sem nenhum problema.
No
final do cemitério havia uma espécie de capela onde os corpos dos pais de Sara
estavam trancados. Era como um jazido perpétuo da família. Ali ficavam os
restos mortais de cinco gerações da família do pai de Sara. E os últimos corpos
foram postos há dez anos. Três caixões: do pai, da mãe e um simbólico dela
própria, desaparecida naquela noite em meio a confusão.
Sara
caminhou por entre os túmulos e lágrimas insistiam em correr em seu rosto.
Sempre que ali chegava, as lembranças daquela noite voltavam a sua mente e um
sentimento de tristeza, de dor, de angústia, de ódio, permeava seu coração.
De
longe viu um homem abaixado em frente a porta do túmulo de seus pais. Achou ser
um dos coveiros. Mas a medida que ia aproximando-se, não tinha mais tanta
certeza.
Quando
já estava bem perto, notou que o homem estava ajoelhado e parecia repetir uma espécie de reza. Mas ele falava
baixinho, e não era possível compreender o que dizia.
Aproximou-se
devagar. Respirou fundo, intencionando chamar o homem. Mas antes que o fizesse,
ele virou-se e encarou Sara com olhos
sarcásticos:
-Olá,
Sara.
Ela
sentiu o corpo estremecer. Por um momento, pensou que desmaiaria. O sangue
parecia ferver em casa veia de seu corpo:
-Jo...Joseph!?
Ali
estava ele, dez anos depois, na frente dela, falando com ela. Sentiu-se
novamente aquela menina inocente. fugindo desesperadamente por sua vida. Não
sabia como agir. Ficou ali, paralisada diante dele. Queria correr, queria
finalizar seu plano, mas não podia fazer nada. Ele levantou-se e ficou diante
dela:
-Acalme-se,
Sara. Sei que ainda não é o dia certo.
Ela
ficou ainda mais assustada. Como ele poderia saber do seu plano?
Por
um instante ainda ficou estática. Fechou os olhos e abriu-os, já agindo normalmente:
-O
que você faz aqui, no túmulo de meus pais?
Joseph
olhou para ela e sorriu:
-Olhos
de assassinos, os olhos que esperava ver
em você.
Deu
uns passos em direção dela e prosseguiu:
-Agora
que já chamei sua atenção e despertei em você os instintos que queria, você vai
me ouvir.
Sara
estava extremamente irritada. Puxou um pequeno revólver e apontou para Joseph,
gritando:
-O
que você faz aqui?
Joseph
riu:
-Ha,
ha, ha. Eu sei que você não vai atirar. Não estragaria seu plano por causa
disso. E não pense que não sei o que pretende...
E
então falou com uma voz tão atemorizante que até Sara tremeu:
-E
então veremos quem é o melhor assassino.
Aquela
frase soou tão intimidadora que ela tremeu as mãos. Joseph olhou para a capela
e sorriu de novo:
-Mas
não perderia meu tempo aqui para discutir aquilo que é tão lógico. Estou aqui
para te falar que você deixou passar um detalhe importante.
Sara
desistiu da arma. Abaixou-a e guardou-a:
-O
que quer dizer, Joseph?
Ele
olhou seriamente para ela:
-Você
sabe o que tem guardado dentro do túmulo de seus pais?
Sara
ameaçou responder, mas foi interrompida:
-Não
diga nada, menina. Você não viu o que foi posto aí dentro. Você acreditou no
que te disseram. E te disseram que seu pai e sua mãe estão enterrados aí. Mas
as portas foram lacradas há dez anos e você nunca viu aberta. Na verdade acho
que ninguém abriu desde então...
Sara
parecia irritada:
-Cale-se,
Joseph. Não deixarei você entrar no túmulo de meus pais.
Joseph
riu e continuou:
-Não
tenho interesse de entrar, Sara. Meu interesse é só te mostrar a verdade antes
que tudo isso termine. Quero que você entenda tudo antes do dia final.
Ele
caminhou um pouco e parou. Olhou para trás e fitou aquela face to bela que fora
transformada em uma assassina:
-Minha
pergunta é: Você não quer saber o que
realmente há no túmulo de seus pais?
Virou
as costas e partiu sem olhar para trás.
Sara
ficou ali, olhando para ele, perplexa.
Joseph
saiu do cemitério e caminhou para a cidade. O seu telefone tocou. Ele pegou e
olhou meio irritado para o número que apareceu. Atendeu com raiva:
-O
que você quer?
Do
outro lado estava o homem que havia
feito o contato com Joseph:
-Joseph,
o contratante quer saber do andamento do caso.
Joseph
falou, irritado:
-Diga-o
que em dois dias tudo será resolvido e que em três dias ele receberá o
relatório com todos os detalhes.
O
homem ficou em silêncio. Não discutiria com Joseph em nenhum momento. Entre os
assassinos corria uma lenda que um homem duvidou do prazo dado por Joseph. Ele
teria cumprido o prazo e o homem pagara com a vida.
-Deixarei
tudo pronto. Você me encontra no mesmo restaurante?
-Em
três dias, na hora do almoço.
Joseph
desligou o telefone e seguiu para a pensão. Precisava descansar e preparar-se
para o que aconteceria naqueles dias.
Sara
ficou para por alguns minutos sem conseguir reagir. Seu corpo parecia
paralisado diante do encontro. Esperava encontrar Joseph, mas nunca no dia em
que sentia-se mais fragilizada.
Olhou
novamente para a pequena capela criada para colocar os corpos de seus pais. Em
um jarro, estavam postas margaridas. As flores preferidas de sua mãe.
Com
muita raiva, chutou o vaso de flores. Depois, pegou as flores que ela levara e
depositou-as na porta do túmulo.
Levantou
os olhos e fitou a corrente e o cadeado. Tomou uma difícil decisão:
-Vou
abrir esse túmulo hoje.
Joseph
seguiu para a central de comandos. Ali encontrou Barros, que caminhava
impacientemente de um lado para o outro:
-Joseph!
Ainda bem que você apareceu.
-O
que houve, Barros?
Ele
suspirou:
-Eu
encontrei com ela ontem, na hora da explosão. Mas uma explosão secundária fez
com que ela fugisse. Se não fosse isso, ela estaria aqui, presa.
Joseph
mostrou-se irritadíssimo:
-Você
é louco? Quer acabar com tudo? Quantas vezes já te disse que eu estou cuidando
de tudo? Barros, você assinou sua sentença de morte. Ela fará o necessário para
acabar com sua vida. E pode ser que nem mesmo eu possa impedir isso.
Barros
deu um soco na parede:
-Joseph,
não aguento mais vê-la solta e não fazer nada.
Joseph
demonstrou ainda mais irritação:
-Idiota!
Em dois dias tudo estará acabado. Não podia esperar só mais um poouco? Dentro
de dois dias resolverei tudo e partirei de Sordes. Agora me responda: se você
morrer, quem vai fechar o caso? Quem será a pessoa que irá a público dizer que
o assassino se foi? O único motivo de você saber de toda a operação é que você
será responsável por tudo isso.
Virou
em direção da porta e acrescentou antes de sair:
-Se
estiver vivo até lá.
Anoiteceu
e o primeiro dia do festival dos mortos teve um discurso político-partidário,
que fez imensas promessas fúteis à população.
Sara
passou em meio aquilo tudo e seguiu para o cemitério. Carregava uma bolsa com algumas ferramentas.
Ela
caminhou até o cadeado que fechava o túmulo de seus pais e pegou um martelo e
uma espécie de chave de fenda. Com aquilo, golpeou o cadeado o quanto pode, mas
nem ele nem a corrente cediam. Forçou mais ainda, pegou uma arma de fogo,
atirou, e nada. Pegou uma de suas espadas e deu diversos golpes, em vão. Por
fim, caiu de joelhos, exausta e fracassada. Neste momento, percebeu que por
mais que fosse uma assassina fria, ainda era apenas uma jovem com um corpo
magro e que não tinha força suficiente para realizar a simples tarefa de abrir uma
corrente. Chorou. Deixou as lágrimas caírem e banharem as flores que deixara no
túmulo pela manhã. Ali ficou por alguns momentos.
Um
brilho fez com que ela despertasse novamente. Olhou para cima e viu Joseph caindo sobre ela com duas
espadas em mãos. Só teve tempo de saltar para o lado.
Joseph
caiu golpeando a corrente com suas duas espadas. As correntes caíram como se
fossem feitas de papel. A força do golpe, o material da espada e a precisão de
Joseph foram fundamentais para o sucesso.
Sara
ficou de pé e falou, extremamente
irritada:
-O
que faz aqui de novo?
Ele
sorriu sarcasticamente:
-O
mesmo que você. Descobrindo o que está escondido aqui dentro.
Ele
golpeou a porta do túmulo com o pé, e a mesma abriu. Dentro estava escuro.
Joseph pegou uma lanterna que estava na mochila que carregava e entrou. Sara
foi atrás dele.
Dentro,
ele apontou a lanterna para os quatro cantos da tumba, e só encontrou duas
mesas de mármore onde deveriam estar os caixões com os corpos. Mas os mesmos
nunca tinham sido usados, e até mesmo os plásticos de proteção ainda o cobriam.
Joseph
riu, como quem confirma uma evidência:
-Eu
estava certo! Os corpos não estão aqui!
Sara
avançou em direção de Joseph:
-O
que fez com os restos mortais de meu pai?
Joseph
olhou para ela com seu olhar intimidador:
-Você
viu que eu abri a porta na sua frente.
Ele
pegou um livro dentro da mochila e entregou a Sara:
-Aqui
está o registro da construção da capela. Foi feita um ano antes das mortes e
desde então nunca foi aberta.
-O
que isso quer dizer?
Joseph
olhou para ela:
-Que
existe muito a descobrir em dois dias.
Joseph
pegou a chave que ativava o elevador da empresa e entregou a Sara:
-Na
empresa de seu pai, os elevadores tem um andar travado. Essa chave a levará até
lá. É onde você saberá a verdade.
Virou
e saiu caminhando.
Sara
ameaçou gritar algo, mas não o fez. Joseph virou e completou:
-Você
vai precisar de uma senha para acessar uma sala. E tem somente uma pessoa que
sabe essa senha: José, seu chefe. Mas ele não te dará tão fácil. Procure-o e
pegue a senha, assim conseguirá saber a verdade.
Joseph
seguiu seu caminho e desapareceu na escuridão da noite.
Sara,
sem saber o que fazer, ligou para José. Descobriu que ele estava no hospital
entre a vida e a morte.
Próximo Capítulo
Sara consegue a senha
que precisa para acessar o andar secreto da empresa, lugar que trará uma
surpreendente revelação para Sara. Mas que revelação será essa que pode mudar
todo o rumo de seu plano de vingança?
Em breve: Capítulo 8
- Menjadi kekuatan yang mendorong kita
- Seja a força que nos conduz
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